A dois dias do Sete de Setembro, a defesa de uma anistia “ampla e irrestrita” é o principal mote de políticos e influenciadores bolsonaristas nas convocações dos atos marcados para o domingo (7). Alinhados a uma ofensiva da oposição no Congresso, posts que levantam a bandeira da anistia acumulam ao menos 350 mil interações e mais de um milhão de visualizações no Instagram e no Facebook nas últimas 24 horas, segundo Aos Fatos verificou em publicações pagas e orgânicas.
A mobilização para o 7 de Setembro nas redes, porém, não ficou restrita ao bolsonarismo neste ano. O governo Lula passou a veicular anúncios que associam a data à defesa da soberania nacional. Aos Fatos identificou que três vídeos impulsionados pelo perfil @govbr acumulavam ao menos 2 milhões de visualizações apenas no Instagram nesta sexta-feira (5).
As publicações dos parlamentares de direita, que ganharam força nesta sexta-feira (5), alegam que tanto o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) quanto o inquérito dos ataques de 8 de Janeiro seriam perseguição política porque não houve um golpe consumado. Nos dois casos, no entanto, a PF (Polícia Federal) reuniu provas que a PGR (Procuradoria-Geral da República) julgou serem indícios de uma tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito (veja aqui e aqui), que é crime, segundo o Código Penal.
As convocatórias bolsonaristas apelam para o emocional, usando mensagens como “última chance” e “vamos mostrar o desejo do povo brasileiro” — apesar de pesquisas de opinião recentes terem indicado que a anistia não conta com o apoio da maioria da população.

Para além das publicações com engajamento orgânico, Aos Fatos também localizou na Biblioteca de Anúncios da Meta publicações impulsionadas por parlamentares, como o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB) — que pagou R$ 1.500 e teve 60 mil impressões — e o senador Rogério Marinho (PL-RN) — que gastou R$ 100 e atingiu 5.000 contas até a tarde desta sexta.
As expressões “Anistia Ampla” e “Anistia Já” acumulavam mais de 100 mil posts no X nesta sexta, tendo como principais mobilizadores os deputados federais Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Bia Kicis (PL-DF) e Gustavo Gayer (PL-GO).
ANISTIA AMPLA
— Bia Kicis (@Biakicis) September 5, 2025
7 DE SETEMBRO NAS RUAS
Articulação. A discussão sobre a possibilidade de anistiar Bolsonaro ganhou força no Congresso nos últimos dias, quando o julgamento do ex-presidente e de outros membros do antigo governo entrou em sua reta final.
Durante a semana, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participou de encontros com parlamentares para tentar costurar a aprovação da anistia na Câmara dos Deputados.
O governador, inclusive, publicou na última quinta (4) um vídeo de abril deste ano em que ele afirma que o Brasil tem “tradição de anistia” e que, por isso, os presos do 8 de Janeiro deveriam ser soltos. Durante seu discurso, ele cita como exemplos as anistias da Guerra dos Emboabas (1707-1709) e da Era Vargas (1930-1945), comparações que são questionadas por especialistas, como Aos Fatos já mostrou.
Por mais que, na Câmara, o clima pareça ser favorável à aprovação de uma anistia, no Senado a história é diferente: o presidente da casa, Davi Alcolumbre (União-AP), já disse que não irá votar qualquer tipo de redução de pena para quem atentou contra a democracia.
Agressividade. Apesar da justificativa para a anistia ser uma suposta “pacificação nacional”, alguns parlamentares sugeriram a possibilidade de ações violentas em suas convocações para o 7 de setembro.
Gayer, por exemplo, disse em seu canal no YouTube que “o bicho vai pegar” no domingo (veja abaixo).

Em entrevista à GloboNews, o jornalista Paulo Figueiredo também subiu o tom ao dizer que a anistia geral e irrestrita “será feita por bem ou por mal”, referindo-se à suposta atenção da Casa Branca ao assunto.
Assim como em anos anteriores, parlamentares também têm usado as bandeiras do impeachment do ministro Alexandre de Moraes e do presidente Lula — mesmo que nenhum deles tenha uma investigação em aberto no Congresso — em meio às convocações.
Campanha à esquerda
Enquanto a oposição usa o discurso da anistia para mobilizar sua base, o governo federal e políticos de esquerda têm impulsionado publicações para se contrapor ao bolsonarismo com o mote “Brasil Soberano”. O Aos Fatos identificou na Biblioteca de Anúncios da Meta três anúncios pagos pelo governo federal que, juntos, custaram cerca de R$ 70 mil e acumulavam quase 2 milhões de impressões na tarde desta sexta-feira.

O lema “Brasil Soberano” também dá o tom de anúncios impulsionados pelo PT e por aliados. Somadas, as peças já alcançaram 23 milhões de usuários nas plataformas da Meta a um investimento de R$ 145 mil.
Entre os que pagaram para impulsionar a postagem está o presidente do PT, Edinho Silva, que gastou R$ 299 em um chamado para “celebrar a verdadeira independência do Brasil”.
Anúncios analisados pelo Aos Fatos afirmam ainda que o 7 de Setembro é “dia de ocupar as ruas por um Brasil soberano, justo e para o povo” — post da deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP) — e que a manifestação é uma tentativa de “afundar o Brasil para Bolsonaro escapar”, como diz post do deputado federal Rubens Otoni (PT-GO).
Há publicações populares que também afirmam que o país se “libertou do comando estrangeiro” há mais de 200 anos, reforçando a ideia de independência do país, celebrada no 7 de Setembro.
O discurso em defesa da soberania nacional pelo governo Lula e seus aliados ganhou força em resposta às interferências dos Estados Unidos e de Donald Trump, como a taxação de 50% sobre exportações brasileiras, municiadas pelas atuações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do comentarista Paulo Figueiredo junto à Casa Branca.
Ajuda da IA
As convocações para as manifestações do Dia da Independência também têm recorrido às ferramentas de IA (inteligência artificial) para produzir conteúdos, tanto à direita quanto à esquerda.

Em anos anteriores, o uso de registros de grandes protestos antigos como se fossem recentes era uma das armas frequentes de desinformação das militâncias políticas nas redes. O conteúdo fora de contexto era mais encontrado nos feeds após as manifestações, como forma de inflar o número real de participantes (veja aqui e aqui).

Agora, com o acesso às ferramentas de IA e a facilidade em produzir cenas realistas, esse tipo de publicação tem dominado a disputa nas redes, ocupando o espaço de postagens que normalmente usariam registros verdadeiros.
O recurso artificial foi usado em peças publicadas nas redes pelo PT e pelo PL, partidos do presidente Lula e do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O caminho da apuração
Fizemos um levantamento de publicações e anúncios impulsionados nas redes sociais da Meta e no X com convocações feitas por governistas e oposicionistas para atos no domingo (7), Dia da Independência. Analisamos as publicações e identificamos o uso de inteligência artificial em parte delas.
Também calculamos o alcance e o investimento feito para o impulsionamento dos posts, de acordo com as informações disponíveis na Biblioteca de Anúncios da Meta.




