Acusados de ‘infiltrados’, bolsonaristas pregavam golpe desde 2018 e organizaram ataques

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Apontados por outros bolsonaristas como “esquerdistas infiltrados” durante a depredação das sedes dos Três Poderes, o casal Ana Priscila Azevedo e Reginaldo Florêncio Verneque, conhecido como Dom Werneck, publica conteúdo golpista nas redes desde pelo menos 2018. Autodefinidos como “nacionalistas e intervencionistas”, os dois transmitiram lives no YouTube e postaram mensagens de incitação a uma intervenção militar muito antes de participarem dos atos terroristas em Brasília.

Desde que foi presa e teve sua identidade divulgada na imprensa, Azevedo tem sido apontada como uma “falsa bolsonarista” que teria incitado a violência para criminalizar os atos, informação que ela mesma refutou em áudio publicado no Telegram. No dia da invasão, ela apareceu sorrindo em meio a uma praça dos Três Poderes lotada de golpistas e, logo após os atos, comemorou o que chamou de “queda da Babilônia”.

Antes bancária, Azevedo abandonou o emprego em 2013 e, segundo diz, passou a viver da venda de produtos militaristas e da doação de seguidores. Em depoimento à Polícia Federal, ela disse receber em torno de R$ 5.000 mensais. Verneque, que era proprietário de restaurantes, também abandonou o emprego para vender produtos e produzir conteúdos direcionados a extremistas.

Abaixo, Aos Fatos traça um histórico do casal, desde os canais intervencionistas no YouTube até a participação nos atos do dia 8.

GOLPISMO ANTIGO

Aos Fatos encontrou conteúdo golpista produzido por Azevedo e Verneque desde 2018. Ela mantinha um canal no YouTube chamado PARTIDO PÉ NA PORTA I, que foi excluído da plataforma. Há registros de que criou ainda outros dois canais — o PARTIDO PÉ NA PORTA II, em março de 2020, e o PARTIDO PÉ NA PORTA III, em julho de 2022. Em suas descrições, os canais se autointitulavam “nacionalistas, militaristas, intervencionistas e altruístas”.

Como os canais foram deletados, não é possível assistir aos vídeos publicados por Azevedo. Algumas gravações, no entanto, podem ser encontradas no Facebook Watch, onde foram compartilhadas por outros usuários:

  • Em agosto de 2018, Azevedo transmitiu uma live em que dizia que o Partido Pé na Porta não permitiria que houvesse eleições naquele ano. “Nós só temos que estar no lugar certo e na hora certa. Aonde? Brasília. Pessoal, a partir de hoje, a partir de hoje nós vamos começar a elaborar todo o nosso plano, caravanas saindo de todo o Brasil, pra onde? Pra Brasília, meu querido. Quando? Final de setembro”, disse ela durante a transmissão de cerca de 30 minutos;
  • Uma usuária do Facebook também gravou trecho de uma live de Azevedo e Verneque em maio de 2021 intitulada “AMEAÇA CONTRA A SOBERANIA DO BRASIL É REAL - EXÉRCITO SE MOBILIZA NA FRONTEIRA”;
  • Azevedo também participou das manifestações bolsonaristas ocorridas em setembro de 2021 em Brasília. Em um dos vídeos publicados no Facebook, ela grava uma barreira humana feita nas ruas da capital nacional e comemora quando uma viatura policial desvia por cima de um canteiro.

A ferramenta de monitoramento do YouTube Playboard também registrou algumas publicações, inclusive monetizadas, do PARTIDO PÉ NA PORTA II antes de ele ser deletado por violar as regras da plataforma (veja abaixo). Além incitar a desobediência civil e clamar por uma intervenção militar, os títulos dos vídeos também indicam que Azevedo gravou conteúdo antivacina: vários posts questionam a eficácia do imunizante Coronavac e criticam a suposta exigência de um “passaporte sanitário”.

Ferramenta registrou títulos de vídeos do canal excluído de Ana Priscila
Vídeos. Pauta do golpe militar era recorrente nas publicações de Azevedo.

Já Verneque continua com seus dois canais no Youtube — CANAL DO DOM OFICIAL, criado em 2016, e UNABRASIL OFICIAL, criado em 2013 — que, juntos, possuem mais de 150 mil inscritos. Grande parte dos vídeos foi colocada em modo privado, mas é possível verificar que o influenciador já fomentava a intervenção militar de seus seguidores desde 2018.

Naquele ano, as publicações feitas na aba “Comunidade” do canal mostravam que Verneque gravou transmissões ao vivo onde ele tratou de temas como “o Brasil clama por intervenção militar”. Em 2019, há posts em que ele agradece os militares pelo golpe de 1964, ato que, segundo ele, impediu que o Brasil se tornasse “Cuba ou Venezuela”.

O intervencionismo de Verneque pode ser encontrado em outras redes sociais do influenciador. No Facebook, por exemplo, ele divulgou fotos de manifestantes na avenida Paulista que pediam por uma intervenção militar em janeiro de 2018 (veja abaixo). Ele defendeu no Twitter, em 2019, que o então vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) assumisse a Presidência como Castelo Branco assumiu em 1964.

Post do Facebook em que Reginaldo Verneque mostra imagem de protesto na Avenida Paulista que pede por intervenção militar
Intervenção. Em post publicado em janeiro de 2018, Reginaldo Verneque mostra participação em protesto golpista (Reprodução/Facebook)

Aos Fatos entrou em contato com o Youtube para questionar os motivos da exclusão dos canais de Azevedo e se os vídeos de Verneque não violam as políticas da plataforma. A assessoria não respondeu até a publicação da reportagem.

PARTICIPAÇÃO NA INVASÃO

Como já mostrado por Aos Fatos em outra reportagem, o grupo hiperpartidário do Telegram coordenado por Azevedo teve protagonismo na difusão de mensagens de convocação para os atos golpistas do último dia 8. Em live publicada no dia 5 diante do QG do Exército em Brasília, ela antecipa os planos para o fim de semana: “Nós vamos colapsar o sistema, nós vamos sitiar Brasília, nós vamos tomar o poder de assalto, o poder que nos pertence”. “O GOLPE É DO POVO BRASILEIRO E SERÁ FATAL!”, disse no dia seguinte em mensagem enviada ao grupo no Telegram.

Ao longo do dia 8, Azevedo publicou diversas orientações aos golpistas e tachou como “traidores da pátria” e “cristãos de merda” os que se mostraram contrários ao uso da força. No meio da tarde, a influenciadora compartilhou imagens da Praça dos Três Poderes tomada por golpistas, e, após os atos, divulgou um áudio em que diz, ofegante: “Eu falei que essa porra dessa Babilônia ia cair!”.

Com a aprovação da intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal e as primeiras prisões, Azevedo abaixou o tom e voltou aos grupos para diminuir sua participação nos atos. A despeito de seu histórico golpista, ela passou a ser apontada como uma “esquerdista infiltrada”, acusação que negou em áudio divulgado no Telegram: “Não tem nenhuma prova, não tem nada que comprove que eu sou uma infiltrada, que eu sou uma criminosa, que eu participei disso daí”.

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Infiltrados. Após prisão de Azevedo, publicações passaram a acusá-la de ser uma infiltrada nas manifestações (Reprodução/Twitter)

Os posts desinformativos, no entanto, continuaram a circular. “Essa é a principal articuladora esquerdista do vandalismo, que incriminou os patriotas no 8/01/2023”, escreveu um usuário no Twitter. Segundo posts, ela teria sido aplaudida por petistas e ganharia passagem para sair do Brasil, “com uma conta no Caribe por ter destruído a maior manifestação democrática do mundo”.

Ana Priscila Azevedo foi presa pela PF em Luziânia (GO) no dia 10 de janeiro. Não há informações sobre o paradeiro de Reginaldo Verneque, que foi contatado pela reportagem, mas não respondeu.

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