A internet foi tomada nas últimas semanas por uma trend mundial esteticamente questionável na qual alimentos, partes do corpo ou objetos ganham olhos e bocas no estilo Pixar para “dar uma bronca” no usuário que está assistindo.
O roteiro é sempre o mesmo: a coisa normalmente inanimada se apresenta e, logo depois, munida de uma expressão brava (ou pior, um sorriso passivo-agressivo), explica o que as pessoas fazem de errado em relação a ela.
É morango dizendo para não ser guardado molhado, privada pedindo para não sentarem nela por muito tempo e até órgãos sexuais chorando para serem menos manuseados.
Esses vídeos, que são gerados com ferramentas de IA, estão por todo lado e acumulam dezenas de milhões de visualizações no TikTok, no X e no Instagram, principalmente. Em reportagens, alguns jornais já chamaram a tendência de “vídeos bonitinhos e educativos”.

Se os vídeos são bonitinhos ou não, isso vai depender da opinião de cada um. Agora, “educativos”... Aí não tem como defender.
Aos Fatos assistiu dezenas desses conteúdos com objetos gritantes e identificou características que colocam em xeque a qualidade da informação repassada por muitos deles:
- Nenhum dos vídeos encontrados apresenta a fonte da informação;
- Na maior parte das vezes, não é possível saber quem é o autor dos conteúdos;
- Algumas gravações trazem informações verdadeiras, mas de forma simplista e descontextualizada;
- E outras são completamente desinformativas.
“Nesses vídeos, é frequente a presença de dados superficiais, distorcidos ou sem respaldo científico. Esse tipo de material, amplamente compartilhado em plataformas digitais, pode contribuir para a propagação de desinformação e para a adoção de práticas alimentares inadequadas”, afirmou o CFN (Conselho Federal de Nutrição) em nota enviada ao Aos Fatos.
Não é porque uma maçã está citando informações nutricionais sobre ela mesma que o vídeo se torna confiável. Ela pode até sugerir autoridade por “ter experiência própria”, mas temos que lembrar que tudo não passa de um prompt para transformar uma mensagem — que não necessariamente é confiável — em um videozinho “fofo”.
E, em alguns casos, esse videozinho “fofo” acaba sendo muito perigoso para a saúde.
Selecionamos as desinformações mais críticas que foram gritadas por objetos falantes nesses vídeos virais para mostrar os perigos de se acreditar em qualquer coisa na internet.

‘Arroz vira açúcar dentro do corpo’
“Eu sou o arroz. Tentaram me vender como base da alimentação, mas dentro do corpo eu viro açúcar”, grita o personagem, seguido de um “grrr” raivoso.
Não conseguimos entender como uma pessoa decide “atacar” o cereal que é comprovadamente uma fonte importante de carboidratos, fibras, vitaminas e minerais e, junto do feijão, forma a base alimentar brasileira.
Sim, o arroz vira açúcar (glicose) dentro do corpo. Mas isso acontece com todo carboidrato.
“Afirmações como a de que determinados alimentos devem ser evitados porque ‘viram açúcar no organismo’ desconsideram a complexidade do metabolismo humano e o contexto global da alimentação, podendo estimular restrições desnecessárias, deficiências nutricionais e uma relação negativa com a comida”, explica o CFN.
Isso sem contar que o vídeo ignora como o cereal é preparado e consumido e até a existência de vários tipos de arroz. Cada uma dessas variáveis influencia em como o alimento é absorvido pelo organismo. A versão integral, por exemplo, é mais rica em fibras e micronutrientes e gera picos menores de glicose.

‘Chá de [insira a planta aqui] para combater a [insira a doença aqui]’
Diferentes plantas também têm ganhado vida enquanto se banham em xícaras de água quente para explicar supostos benefícios à saúde.
Por mais que vários desses vídeos estejam compartilhando informações verdadeiras, elas acabam se tornando perigosas por conta da maneira com que são apresentadas.
Um exemplo é o chá de canela, que diz: “beba-me se seu açúcar no sangue vive alto”. Apesar de haver evidências de que a bebida ajuda a controlar picos de glicose, ela não pode ser tratada como alternativa a medicamentos.
Laura Marise, farmacêutica e pesquisadora do canal Nunca Vi 1 Cientista, alerta que esse tipo de vídeo pode fazer com que pessoas abandonem ou não busquem tratamento correto: “‘Ah, nossa, tô com a pressão alta, só tomar um chá de hibisco aqui que passa’. E aí a pessoa pode ir acumulando danos no corpo ao invés de se medicar da forma correta”.
A pesquisadora ainda aponta que os vídeos ignoram diversas informações importantes, como a quantidade do chá, como ele deve ser feito (pau de canela, pó, saquinho) e a concentração da bebida. “Não é porque é natural que as pessoas podem tomar o quanto elas quiserem”, explica.

‘Genitais bronzeados e hidratados’
Também nos deparamos com diversos vídeos que dão dicas de como cuidar dos órgãos genitais. Na maior parte das vezes, são informações de limpeza e cuidados básicos, sem muito problema. Mas alguns vídeos são completamente descolados da realidade.
Um deles, com mais de 3 milhões de visualizações no TikTok, sugere que os homens deveriam passar óleo de coco nos testículos e tomar 20 minutos de sol diariamente a partir das 11h para “liberar mais testosterona”.
Não. Façam. Isso.
Não existe evidência científica de que isso funcione. Além disso, tomar sol em partes do corpo com a pele mais fina — como a área genital — aumenta o risco de câncer.
Outro vídeo que acumulou centenas de milhares de visualizações no X aconselhava as pessoas a manterem os órgãos sexuais hidratados.
Os posts omitem, no entanto, que uma hidratação incorreta pode causar problemas como infecções.
Da mesma forma que no caso dos chás, a informação é tão rasa que fica descontextualizada: todo mundo precisa? Quantas vezes por dia? O que seria usado como hidratante? E se a pessoa tiver alergias?
Cada pessoa tem um corpo e questões de saúde próprias. Por isso, o conselho é sempre procurar um ginecologista ou urologista para tirar dúvidas e conseguir indicações corretas.
Veja bem: não estamos dizendo que todos os conteúdos desse tipo que circulam por aí estão errados. Pode ser que o videozinho da fruta ou da privada falante estejam corretos. Caso a gravação tenha sido feita por uma pessoa responsável e com fontes confiáveis, tudo bem.
Porém, se você não sabe quem criou o vídeo — o que provavelmente ocorre na maioria dos casos —, procure a informação em sites confiáveis e, antes de adotar medidas para “melhorar sua saúde”, consulte um nutricionista ou um médico.




