Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fizeram 24 publicações no X sobre sua prisão preventiva que foram sinalizadas como desinformativas por usuários da plataforma, mas nenhuma das notas da comunidade propostas foram aprovadas. Os posts, que distorciam os motivos da decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, acumulam mais de 17 milhões de visualizações na plataforma.
O levantamento do Aos Fatos levou em consideração as publicações feitas entre os dias 22 e 25 de novembro pelos perfis de parlamentares e influenciadores que visitaram o ex-presidente enquanto ele cumpria prisão domiciliar. Também identificamos outras publicações desinformativas que não receberam nenhuma sugestão dos usuários.
Os resultados da análise vão ao encontro de pesquisas realizadas sobre a eficácia das notas da comunidade, que apontam que a maioria dos conteúdos que buscam desmentir publicações na rede social nunca são aprovados.
A maior parte das publicações levantadas pelo Aos Fatos argumenta que Moraes teria ordenado a prisão preventiva de Bolsonaro unicamente por conta da vigília convocada para a noite do último sábado (22) por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Essa argumentação, que foi compartilhada também pelo próprio senador, aparece em posts que acusam o STF de ter “criminalizado a oração” (veja abaixo).
As publicações desinformam por dois motivos:
- A prisão preventiva do ex-presidente foi decretada após uma violação da tornozeleira eletrônica e, segundo o próprio Moraes, por um conjunto de motivos que colocavam em risco a prisão domiciliar;
- O magistrado em nenhum momento criminaliza a atividade religiosa — tanto é que o evento aconteceu mesmo com Bolsonaro preso preventivamente. O ministro afirma apenas que o tumulto causado pela vigília tinha “alta possibilidade de colocar em risco a prisão domiciliar imposta”.

Usuários também apontaram outras desinformações:
- O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por exemplo, publicou um vídeo em que afirmava que a eleição brasileira de 2022 e o pleito americano de 2020 haviam sido fraudados. A nota sugerida lembrou que não há provas dessas alegações;
- Usuários também apontaram um erro na comparação do vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) entre a vigília convocada por seu irmão e as realizadas por aliados de Lula em Curitiba. O petista, no caso, já estava preso na superintendência da PF (Polícia Federal) na capital paranaense quando as manifestações ocorreram;
- O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também recebeu uma sugestão de nota em sua publicação. Nela, ele dizia que não houve comunicação prévia de restrição de uso de celular durante sua visita ao ex-presidente, ocorrida na última sexta (21) — o parlamentar foi flagrado pela imprensa usando o aparelho. A proibição está na decisão do STF que determinou a prisão domiciliar de Bolsonaro;
- Uma publicação compartilhada pelo deputado federal Osmar Terra (PL-RS) também foi sinalizada por distorcer um habeas corpus impetrado por uma cidadã em favor de Bolsonaro que já havia sido indeferido pela relatora, a ministra Cármen Lúcia.
Desinformações não sinalizadas
Aos Fatos identificou ao menos outras 27 publicações desinformativas que não receberam nenhuma sugestão de correção ou contextualização por parte de usuários. Isso aconteceu com outros posts que alegavam que Bolsonaro teria sido preso por conta da vigília convocada por Flávio ou que a decisão de Moraes seria uma afronta à liberdade religiosa.
Um exemplo é o deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS), que repetiu a alegação enganosa de que a convocação da vigília teria sido o motivo da prisão de Bolsonaro (veja abaixo).

Diversas publicações também compartilharam uma teoria da conspiração apontada pelo Aos Fatos no último sábado (22): a de que a prisão seria uma “cortina de fumaça” usada por Moraes para desviar a atenção do caso de fraude do Banco Master.
Usuários têm citado o fato de que o escritório de advocacia da família do ministro já teria prestado serviços à instituição financeira para alegar que eles estariam envolvidos na suposta fraude.
A alegação não tem embasamento, já que há um fato concreto que levou à conversão da prisão domiciliar em preventiva: Bolsonaro não só usou ferro de solda em sua tornozeleira como confessou ter tentado abrir o equipamento.

O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) chegou a compartilhar uma imagem gerada por inteligência artificial para sugerir que Bolsonaro estaria sendo apoiado por pessoas em diferentes locais do planeta.

As Notas da Comunidade
O programa das Notas da Comunidade do X, segundo a própria plataforma, “busca fornecer contexto útil para que as pessoas fiquem mais bem informadas sobre os posts que veem”. O objetivo seria “ajudar todas as pessoas, até mesmo as mais céticas, a entenderem melhor um post e por que ele pode ser enganoso”.
Usuários se inscrevem no programa para classificar notas como úteis ou não e também escrevem suas próprias observações. O algoritmo, então, “leva em conta não só quantos colaboradores avaliaram a nota como útil ou não útil, mas também se as pessoas que o fizeram parecem ver a questão sob diferentes perspectivas”. A nota só fica visível para os outros usuários após essa aprovação.
Especialistas e estudos têm questionado a validade do programa ao apontar que a maior parte das notas nunca é aprovada, mesmo que estejam corretas.
“Deve haver consenso ideológico. Isso significa que pessoas na esquerda e pessoas na direita têm que concordar que aquela nota deve ser adicionada àquele tuíte” explicou o diretor da MediaWise, Alex Mahadevan, em 2024. Esse consenso, segundo ele, é impossível em algumas questões.
Isso é provado por dados: cada vez mais, menos notas sugeridas são aprovadas no X. Segundo um levantamento da Bloomberg, apenas 8,2% delas foram adicionadas a publicações em fevereiro de 2025.
O programa também enfrenta um novo desafio atualmente, que é a queda de participação ao longo deste ano.
Uma iniciativa semelhante tem sido avaliada pela Meta em suas redes desde janeiro com o intuito de substituir o programa de verificação de fatos em parceria com organizações de checagem – já encerrado nos Estados Unidos. A big tech tem feito testes com essa ferramenta nos EUA e pediu recentemente ao Oversight Board — órgão independente formado por especialistas — que opine sobre sua expansão para outros países.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com a assessoria dos parlamentares e influenciadores citados na reportagem.
A influenciadora Bárbara Destefani discordou da nota e da avaliação da reportagem e reafirmou que “a polícia federal de fato solicitou a prisão do presidente Bolsonaro por conta de uma vigília, um grupo que promoveria oração na intenção do presidente, ao lado de fora do condomínio”. Conforme explicado na reportagem, a solicitação da PF de fato foi anterior, mas a decisão de Moraes só foi tomada após a violação da tornozeleira, na madrugada do dia 22.
Os parlamentares citados não responderam até a publicação deste texto.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou as publicações no X de todos os parlamentares e influenciadores que tiveram visitas a Jair Bolsonaro aprovadas pelo STF. As publicações desinformativas, com e sem notas sugeridas, foram separadas e selecionadas. A reportagem conferiu então as notas adicionadas às publicações e descartou aquelas que não desmentiam ou não apresentavam um contexto referente ao assunto do tuíte.
Aos Fatos também consultou a decisão de Moraes e os acontecimentos relacionados à prisão preventiva de Bolsonaro para desmentir os argumentos apresentados.
Por fim, entramos em contato com as assessorias das pessoas citadas no texto.




