Agro distorce ciência para tentar promover desinformação climática nas escolas

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“Às vezes, quando falo para uma plateia mais ampla, alguém vem conversar comigo no final para argumentar que o balanço de carbono do gado é neutro.” Nem as credenciais de Luciana Rizzo, que é professora de física atmosférica na USP (Universidade de São Paulo), a poupam de ouvir essa desinformação, que tenta isentar a pecuária de responsabilidades pelas mudanças climáticas.

A promoção de uma “ciência alternativa”, que chega a conclusões não reconhecidas pelo mundo acadêmico, tem sido uma das apostas do agronegócio brasileiro para tentar minimizar os danos de imagem causados por seu impacto sobre o meio ambiente. Agora, o setor trabalha para levar as narrativas que negam consensos científicos — como a ouvida por Rizzo — também para as salas de aula.

Por ter tido contato prévio com a informação falsa, a professora da USP não se surpreendeu quando Aos Fatos pediu a análise de um vídeo que afirmava que o metano emitido pelo gado não teria relação com as mudanças climáticas, pois seria supostamente reabsorvido pelo pasto, gerando um “ciclo neutro” de carbono.

“Isso é uma falácia”, rebate a cientista, explicando que, embora já existam técnicas de mitigação das emissões da atividade, elas não são aplicadas em larga escala, fazendo com que a produção de gado ainda seja vilã do aquecimento global e uma das principais fontes brasileiras de metano, que aquece 30 vezes mais que o gás carbônico.

O vídeo que nega essa realidade foi produzido por uma empresa de nutrição animal e está disponível na Agroteca, base de dados destinada a professores e estudantes que alega oferecer “materiais constantemente atualizados”, que seriam “baseados em fatos e dados científicos”. A animação sobre o metano da pecuária, porém, é apenas um dos exemplos de desinformação climática encontrados ali.

O repositório foi criado pela Donme (De Olho no Material Escolar), associação que faz lobby para promover uma visão mais “positiva” do agronegócio nas escolas.

Como Aos Fatos mostrou, a entidade é acusada de pressionar editoras para retirar dos livros escolares menções aos problemas socioambientais do agro. Estão na mira o desmatamento, as queimadas na Amazônia, as mudanças climáticas e o uso excessivo de agrotóxicos, dentre outros.

O lobby do agronegócio tem buscado legitimar sua narrativa se aproximando de instituições ligadas a universidades e investe pesado no relacionamento político em Brasília para tentar alterar as diretrizes da educação e, assim, limpar sua imagem.

Ilustração de um livro aberto no centro, com dois lápis apontando para suas páginas a partir das laterais, em cores vibrantes.

‘Selo USP’ de desinformação

Para dar respaldo científico à Agroteca, a Donme firmou um convênio com a Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), atribuindo à faculdade a “curadoria” do conteúdo divulgado na base de dados.

O objetivo autodeclarado da cooperação é “retratar a verdade sobre o que acontece no atual setor agropecuário do Brasil, sem ideologias ou pragmatismos [sic]”. Na prática, a reputação da universidade pública está sendo usada para dar credibilidade a peças de desinformação climática.

Aos Fatos teve acesso ao texto do convênio por meio da Lei de Acesso à Informação. O acordo foi assinado em 20 de junho de 2022, tem duração de cinco anos e prevê um custo total estimado em R$ 51.559,20, que seriam arrecadados junto à iniciativa privada e geridos pela Fealq (Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz). A maior parte dos recursos (R$ 48 mil) são destinados a bolsas para alunos da graduação da Esalq-USP — estagiários de agronomia estiveram entre os responsáveis por alimentar a Agroteca, segundo Aos Fatos apurou.

Além da seleção dos verbetes da Agroteca, a cooperação também previa “possibilitar a realização de contestações técnicas, que se façam necessárias, de conteúdos presentes nos materiais didáticos do ensino fundamental e médio dos setores educacionais público e privado do Brasil, que fazem referência ao setor do agronegócio nacional”.

Aos Fatos apresentou à Esalq-USP as evidências de disseminação de desinformação na base de dados, pediu explicações sobre o processo de seleção dos conteúdos e questionou se a universidade recebe contrapartidas por sua participação no projeto e se pretende renovar a parceria.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a faculdade respondeu apenas que “a coordenação do convênio foi revista pela atual gestão da Esalq e as atividades conjuntas serão desenvolvidas com equipe qualificada, vinculada à Comissão de Cultura e Extensão”.

Já a Donme discorda da avaliação de que sua base de dados disponibiliza desinformação climática e afirma que “a curadoria científica realizada em parceria com instituições de ensino e pesquisa é justamente a garantia de que os conteúdos da Agroteca sejam cientificamente embasados e passíveis de atualização”.

A associação também afirma que, para 2026, “está em curso um planejamento de reavaliação dos mais de 500 conteúdos disponíveis”, com o objetivo de verificar sua atualização, aprimorar a catalogação, indicar faixas etárias, relacioná-los à BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e ampliar a oferta de verbetes.

Também disse que o convênio tem a previsão de incluir a atuação da Casa do Produtor Rural, também ligada à Esalq, e uma nova parceria com o Instituto Brasileiro de Agricultura Regenerativa, “ampliando a abordagem sobre sustentabilidade e processos regenerativos” (leia a íntegra da resposta).

A estratégia de usar cientistas para questionar consensos foi muito usada pela indústria do tabaco e, agora, é aplicada também a questões ligadas às mudanças climáticas, conta o livro Os Mercadores da Dúvida, dos historiadores da ciência Naomi Oreskes e Erik M. Conway, que ganhou tradução brasileira no ano passado.

No mundo, essa estratégia é adotada principalmente pela indústria de combustíveis fósseis, que patrocina pesquisas que fornecem “explicações alternativas” para o aquecimento global, promove a participação de pesquisadores alinhados com seus interesses em eventos e financia institutos que atuam descredibilizando o trabalho de cientistas por meio da imprensa.

Os combustíveis fósseis são considerados os principais motores das mudanças climáticas em escala mundial. No Brasil, porém, esse posto é ocupado pelo agronegócio, que teme que as críticas a seus impactos socioambientais possam prejudicar suas exportações.

“Existem muitos setores no país e no mundo que tentam emplacar discursos que não condizem com a realidade dos fatos”, alerta o meteorologista Gilvan Sampaio, coordenador-geral de Ciências da Terra do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que chama o fenômeno de “guerras de informações”.

“O Brasil, infelizmente, é um grande emissor de gases do efeito estufa, sim”, reforça o cientista, desafiando quem contesta a afirmação a provar “com artigos científicos sérios, em revistas sérias”.

Ilustração de três lupas com lentes rachadas, dispostas lado a lado.

Ofensiva em Brasília

Quando tentou usar seu poderio econômico para pressionar as editoras, o agronegócio bateu de frente com as normas que ditam as diretrizes da educação nacional. Diante do impasse, o alvo passou a ser a própria legislação. Em jogo está o grau de proteção dos conteúdos escolares contra a influência de interesses privados.

Um dos eixos da atuação desse lobby são as discussões do PNE (Plano Nacional de Educação), que estabelece as metas que todos os níveis de ensino deverão perseguir nos próximos dez anos. O plano foi aprovado no dia 10 de dezembro pela Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado.

O reforço da investida do Donme em Brasília coincide com a chegada à associação do advogado Henrique Lago da Silveira, especialista em direito público com foco em educação. Em janeiro do ano passado, ele foi nomeado vice-presidente da entidade, cargo antes ocupado por nomes ligados ao agro.

Figuras com histórico de defesa de interesses privados no campo da educação passaram a ser apresentadas como consultoras do movimento. É o caso da empresária Elizabeth Guedes — presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares e irmã de Paulo Guedes, ministro da Economia no governo Bolsonaro — e da professora Guiomar de Mello, secretária de Educação de São Paulo na gestão de Mário Covas.

A Donme também alterou seu estatuto e retirou de seu site parte das menções que a ligavam ao agronegócio, passando a se apresentar como uma organização que trabalha pela melhoria da educação como um todo.

Grupo de quatro pessoas, um homem e três mulheres, posam para foto sorrindo em cerimônia oficial, em frente a um painel institucional e à bandeira do Brasil. No centro, Leticia Jacintho segura uma medalha ao lado da deputada Adriana Ventura, que exibe um certificado de premiação. Ambas são mulheres brancas de cabelos castanhos, lisos e compridos. Leticia veste vestido branco e Adriana, um vestido estampado vermelho sob blazer preto.
Leticia Jacintho, presidente da Donme, recebe da Câmara prêmio Darcy Ribeiro de Educação por seu trabalho à frente da entidade ligada ao agro (Vinicius Loures / Câmara dos Deputados).

As sugestões da ONG para o PNE refletem esse reposicionamento de marca, abordando desde o acesso às creches à qualidade da produção científica dos programas de pós-graduação.

No meio da pauta geral, porém, uma proposta busca viabilizar o plano do agronegócio de interferir nas escolas: acusando os livros de terem “erros factuais”, a ONG passou a defender que esses materiais deveriam citar apenas “fontes científicas”, proibindo reportagens de jornal e textos “opinativos”.

Também sugeriu a criação de canais de denúncias e auditorias independentes aos conteúdos — o que, na prática, pode promover campanhas de pressão.

A reivindicação do agro foi tema de 26 emendas similares apresentadas por parlamentares durante as discussões do PNE na Câmara. Uma delas, encaminhada em 8 de maio pelo deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), traz em seus metadados o nome de uma então funcionária do Instituto Pensar Agro como autora do PDF. Lupion é presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), para quem o instituto presta assessoria.

Para responder a “grupos que têm feito movimentos de desinformação, negacionismo e censura nas escolas, inclusive o agro”, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação apresentou uma proposta ao PNE, replicada por três deputados, para garantir que a educação seja fundamentada “em conhecimentos humanísticos e científicos, validados por processos acadêmicos e sociais legítimos, legitimados por pares.” A redação limita interpretações subjetivas do conceito de ciência.

Aos Fatos procurou o gabinete de Lupion, o Instituto Pensar Agro e a FPA para comentar, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto.

Ilustração de um livro aberto dentro de uma cerca circular, sugerindo restrição, controle ou isolamento.

Armadilha

Se a demanda por “conteúdos baseados na ciência” parece acima de qualquer suspeita, a experiência do mercado editorial com a interpretação que o lobby do agro dá para a expressão causa apreensão.

A acusação sobre os livros utiliza como base um estudo sem validação acadêmica que a Donme encomendou à FIA (Fundação Instituto de Administração). Na apresentação do relatório, é apontado que apenas 12 dos 345 textos analisados pela consultoria por mencionarem o agronegócio seriam “científicos” — a maioria (303) ganhou a classificação de “texto autoral”.

O estudo foi encaminhado para editoras, causando espanto. “Criticavam o fato de que textos de língua portuguesa eram opinativos e não deviam estar lá”, indigna-se um editor, que considera que as estatísticas apresentadas na análise não faziam sentido. “Eram textos literários!”

Página de livro didático sobre a figura de linguagem hipérbole, com manchete “Diretor do Ibama: ‘Queimadas vão fazer do Brasil um inferno’”, texto explicativo e foto de incêndio em vegetação com torres de energia ao fundo, próximo a Brasília. Fotografia é exibida em apresentação que tem como fundo a imagem de uma plantação e, no alto à esquerda, logo do movimento De Olho no Material Escolar.
Conteúdo de português criticado em apresentação da Donme usa fala de presidente do Ibama sobre problema real para discutir figura de linguagem (Reprodução).

Educadores ouvidos pelo Aos Fatos também ressaltam que o fato de um autor explicar um conteúdo em suas próprias palavras ou utilizar charges, reportagens ou outros materiais para ilustrar a lição não significa que as informações estejam erradas.

“O nosso papel como editor e como autor é, principalmente, reescrever”, explica uma profissional do mercado editorial, considerando que o agro classifica como não científico tudo o que vai contra seus interesses. “O que é ciência para eles? Eles não sabem o que é ciência, eles não gostam da ciência”, revolta-se.

“O autor pega textos de referência universitários e trabalha com a transposição didática, simplificando aquele conhecimento, mas mantendo a correção conceitual”, detalha Maria Cecília Condeixa, presidente da Abrale (Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos).

O rigor nesse processo de adaptação é crucial para que a obra seja aprovada pelo PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), ressalta a educadora, lembrando que as referências originais, mesmo que não sejam citadas nos livros dos estudantes, costumam estar listadas nas bibliografias de manuais destinados aos professores.

Ao tomar conhecimento da campanha contra os livros escolares, Condeixa tentou durante semanas, sem sucesso, um convite para ser oradora oficial na audiência pública que discutiu o PNE em São Paulo, realizada em junho do ano passado. Só conseguiu espaço para falar porque seu nome foi confundido com o de uma convidada.

A Abrale existe há 35 anos, e a dificuldade da entidade que representa os autores de livros didáticos em ser ouvida em um debate sobre educação contrasta com o espaço dado ao agronegócio: a Donme, que foi fundada em 2021, conseguiu emplacar duas porta-vozes no evento.

A FIA não respondeu ao pedido de posicionamento do Aos Fatos. Leia abaixo a íntegra da resposta da Donme.

Posicionamento da De Olho no Material Escolar

A Donme é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, laica e apartidária. Com quatro anos de atuação, tem como objetivo institucional contribuir para a melhoria da qualidade da educação brasileira, por meio de um ensino pautado em evidências científicas, conectado à vivência prática e orientado a resultados de aprendizagem, de modo a ampliar as oportunidades de desenvolvimento pleno, produtividade e prosperidade das futuras gerações.

Um diferencial central da associação, em relação a outras instituições do campo educacional, é o seu foco na conexão entre educação e setor produtivo, compreendendo que essa aproximação, quando feita de forma responsável, transparente e baseada em dados, contribui para tornar o processo educacional mais significativo para os estudantes. Nesse contexto, o agronegócio aparece com frequência em nossas iniciativas por se tratar de um setor altamente relevante e estruturante da economia brasileira, mas não de forma exclusiva.

O que nos mobiliza atualmente é um cenário educacional profundamente desafiador, amplamente reconhecido por indicadores oficiais e avaliações internacionais. Para citar apenas alguns dados públicos e amplamente consolidados:

  • 40,8% das crianças brasileiras não estavam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental (Saeb – Ideb, 2023);
  • O Brasil ocupa a 55ª posição em matemática entre 58 países avaliados ao final do 4º ano (TIMSS, IEA, 2023);
  • Os estudantes brasileiros estão na 39ª posição em leitura entre 43 países ao final do 4º ano (PIRLS, IEA, 2021);
  • Nenhum estado brasileiro atingiu a meta nacional de 5,2 no ensino médio (Ideb, 2023).

É nesse contexto que a Donme reuniu especialistas multidisciplinares, em áreas como formação docente, alfabetização, violência escolar e avaliação educacional – para elaborar diagnósticos e propostas que contribuam para o debate público, inclusive no âmbito do novo Plano Nacional de Educação, cujo texto foi aprovado na Câmara dos Deputados e segue em tramitação no Senado Federal.

ABAIXO COMENTÁRIOS PARA AS PERGUNTAS:

1) Sobre alegação de pressão para retirada de conteúdos “negativos” ao agronegócio.

Resposta: Nossa metodologia consiste em analisar conteúdos pontuais, sempre com base em dados verificáveis, fontes oficiais e referências academicamente reconhecidas, apontando eventuais imprecisões, generalizações ou desatualizações.

Não propomos a exclusão de temas sensíveis ou desafiadores e sempre estivemos abertos ao diálogo e ao contraditório técnico.

2) Sobre contatos com editoras por meio de eventos, e-mails, visitas e relatórios.

Resposta: A comunicação da De Olho com editoras, autores e conteudistas é pautada pelo diálogo, transparência e escuta ativa. Apresentamos pareceres e sugestões de caráter consultivo, sem qualquer poder regulatório ou pretensão de imposição.

Nosso objetivo é contribuir tecnicamente para a melhoria da qualidade da educação, sempre abertos a contrapontos e debates qualificados.

3) Sobre a alegação de que alterações ocorreram por interesses mercadológicos.

Resposta: Decisões editoriais não decorrem exclusivamente da atuação da De Olho, mas de um ecossistema amplo de atores. As recomendações da associação são exclusivamente técnicas, baseadas em evidências científico-acadêmicas e dados oficiais, amplamente utilizados inclusive pelo poder público.

A De Olho é uma organização sem fins lucrativos e não possui poder decisório sobre os conteúdos finais, limitando-se a sensibilizar e recomendar, nunca impor.

4) Sobre relatos de medo, intimidação ou abordagem inadequada.

Resposta: A atuação da De Olho é orientada por princípios de conduta ética, respeito e cordialidade. Não temos conhecimento de episódios como os relatados, que não condizem com nossa prática institucional.

Ainda assim, estamos totalmente à disposição para ouvir diretamente os envolvidos, esclarecer eventuais mal-entendidos e, se necessário, nos retratar por qualquer desconforto causado.

5) Sobre o relatório produzido pela FIA (Fundação Instituto de Administração).

Resposta: O trabalho foi desenvolvido por especialistas da FIA/USP, com metodologia apresentada pela própria instituição, total autonomia técnica e assessoria especializada. A isenção institucional foi condição básica para o desenvolvimento do projeto.

As centenas de unidades de referência analisadas — trechos que contêm palavras-chave relacionadas ao setor agro — possuem documentação metodológica específica e podem ser apresentadas sempre que necessário.

O principal resultado do estudo aponta que mais de 85% das unidades de referência identificadas não possuíam vínculo com referência bibliográfica, sendo classificadas como autorais pelos próprios autores do projeto. Essa constatação dialoga diretamente com uma das principais bandeiras da Associação: que todas as informações apresentadas aos estudantes tenham base científica ou em fontes oficiais, ainda que em linguagem simples e acessível.

6) Sobre críticas de educadores ao relatório.

Resposta: O estudo teve como foco verificar se as menções apresentam fontes científicas e se estão atualizadas em relação à realidade do campo. Não se propõe o uso de textos acadêmicos no ensino fundamental ou médio, mas sim uma melhor contextualização dos temas, sempre acompanhados de fontes científicas atualizadas e rastreáveis.

A linguagem deve ser adequada a cada faixa etária ou nível escolar, o que é essencial para o aprendizado. A existência de uma referência científica como base para discussão de veracidade ou atualidade não implica a transcrição direta de trabalhos científicos para o material didático.

7) Sobre o encontro com editoras realizado na Fiesp

Resposta: Em relação a um encontro com editoras ocorrido há alguns anos na Fiesp, foram apresentadas críticas a conteúdos exibidos sobre o Cerrado e sua relação com atividades produtivas.

Em nossas apresentações, não divulgamos qualquer conteúdo que não esteja fundamentado em fontes científicas atualizadas e rastreáveis. Defendemos que todos os biomas sejam amplamente estudados em sala de aula, assim como a importância de seu uso sustentável, com base em evidências científicas.

Sugerimos que a abordagem dos biomas permita aos alunos compreender suas diversidades, peculiaridades e a forma como diferentes atividades econômicas interagem com cada um deles.

8) Sobre falas atribuídas à presidência da associação em evento.

Resposta: A associação reconhece a existência de práticas criminosas no agronegócio, assim como em outros setores produtivos, e jamais defendeu que esses temas deixem de ser abordados.

O que se defende é uma abordagem equilibrada e contextualizada, que trate desafios reais, mas também apresente boas práticas, inovação, tecnologia e desenvolvimento, oferecendo aos estudantes uma visão mais completa e responsável.

9) Sobre comparação com outros movimentos e atuação de pais e escolas.

Resposta: A De Olho no Material Escolar é uma instituição laica, apartidária e de caráter técnico. Pais e escolas não atuam em nome da associação, nem se dirigem às editoras sob sua chancela.

A instituição realiza escuta ativa de diferentes atores, mas nenhuma manifestação individual é automaticamente endossada. Toda contribuição passa por rigorosa análise técnica e curadoria interna antes de se tornar recomendação institucional.

10) Sobre a Agroteca e o convênio com a Esalq.

Resposta: Foi afirmado que a Agroteca disponibilizaria conteúdos de desinformação climática e utilizaria o convênio com a Esalq para conferir legitimidade a esse material.

Colocamo-nos à disposição para receber a fundamentação detalhada que sustente essa afirmação. A curadoria científica realizada em parceria com instituições de ensino e pesquisa é justamente a garantia de que os conteúdos da Agroteca sejam cientificamente embasados e passíveis de atualização.

Em 2026, está em curso um planejamento de reavaliação dos mais de 500 conteúdos disponíveis, com o objetivo de verificar sua atualização, aprimorar a catalogação, indicar faixas etárias, relação com a BNCC e ampliar conteúdos.

O convênio com a ESALQ tem previsão de incluir trabalho conjunto com a Casa do Produtor Rural (ESALQ/USP) e nova parceria com o Instituto Brasileiro de Agricultura Regenerativa (IBA), ampliando a abordagem sobre sustentabilidade e processos regenerativos.

11) Sobre o fact-checking de conteúdos da Agroteca e a relação entre pecuária e desmatamento.

Resposta: Foi realizado fact-checking de conteúdos disponibilizados na Agroteca, incluindo material que aborda a relação entre pecuária e desmatamento.

A conclusão de que a afirmação apresentada seja falsa não nos parece adequada, ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis. Estamos completamente à disposição para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema.

É importante esclarecer o ponto central: o argumento não é negar a existência de desmatamento no país, tampouco afirmar que a pecuária não tenha qualquer relação com dinâmicas territoriais. O que se afirma, de forma objetiva, é que o crescimento da pecuária brasileira não depende do desmatamento.

Reiteramos que existe correlação entre áreas de desmatamento e áreas ocupadas por pastagens — fato nunca negado por técnicos e pesquisadores ouvidos por nossa equipe. O que se defende é a análise da causalidade de forma mais completa e contextualizada.

A produção pecuária no Brasil tem crescido de forma consistente mesmo com a redução da área total de pastagens, evidenciando ganhos de produtividade. Isso não elimina a existência de desmatamento legal ou ilegal, mas demonstra que tais práticas não explicam nem sustentam o crescimento do setor, que envolve uma parcela muito pequena dos produtores rurais.

Portanto, a análise deve considerar séries históricas, produtividade e eficiência, evitando conclusões simplificadas sobre um tema complexo, que exige base técnica sólida e diálogo científico contínuo.

* Colaboraram Bruno Fávero e Luiz Fernando Menezes.


Esta é a segunda reportagem do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center.

O caminho da apuração

Durante a apuração da primeira reportagem desta série, que tratou da pressão do lobby do agro sobre os materiais didáticos, Aos Fatos identificou a estratégia de acusação de que os livros escolares não teriam embasamento científico e ouviu críticas de educadores à afirmação.

A reportagem soube da movimentação junto ao PNE por conteúdos compartilhados por pessoas ligadas ao Donme nas redes sociais. A análise inicial das emendas ao projeto foi feita com a ajuda de inteligência artificial. A tecnologia gerou resumos dos projetos e permitiu, na revisão humana, identificar os conteúdos que coincidiam com a narrativa do agro.

Os metadados das emendas foram analisados com a ferramenta ExifTool. O convênio entre a Esalq-USP e a Donme foi obtido por meio de pedido à universidade feito com base na Lei de Acesso à Informação. As alterações no site da associação foram constatadas no Internet Archive.

A apuração foi complementada por entrevistas e técnicas de Osint (Open Source Intelligence). Por fim, Aos Fatos entrou em contato com as entidades mencionadas no texto para abrir espaço para posicionamento.

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