Corrida pelo Pix da IA exacerba distância entre o jornalismo do Sul e o do Norte Global

Por Tai Nalon

24 de maio de 2024, 15h42

Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional.


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#33 | A CORRIDA PELO PIX DA IA

NewsCorp, Financial Times, Dotdash Meredith, Axel Springer, Informa, Associated Press, Prisa Media, Le Monde — esses são os grupos de mídia, todos do Norte Global, com os quais empresas como OpenAI e Microsoft estão firmando acordos de licenciamento de conteúdo para alimentar suas ferramentas de inteligência artificial. Outras negociações estão em curso, e há expectativa de que um ou outro veículo médio consiga arrancar algum benefício entre os mamutes, mas o que ocorre no mundo rico é prenúncio da tempestade que vai abalar o cambaleante jornalismo da periferia global.

A necessidade de qualificar a informação gerada pelas ferramentas de IA generativa é fato pacífico, e executivos dessas plataformas vez ou outra têm emergido de seus tanques de privação sensorial a fim de oferecer um agrado ao jornalismo. Foi assim com os Instant Articles da Meta e com as Accelerated Mobile Pages do Google na década passada, não tem por que não ser assim agora.

O problema é que o que eles entendem como jornalismo é muito parecido com o que eles encontram nas salas de reunião de alto nível: nesta semana, a Meta anunciou um conselho consultivo para IA composto apenas de homens brancos. O mesmo ocorre no conselho da OpenAI.

Em um artigo publicado na Columbia Journalism Review nesta semana, o diretor de pesquisa do Tow Center for Digital Journalism, Pete Brown, lembra que “o desequilíbrio de poder entre plataformas e publishers tem há muito gerado acusações de que as empresas de tecnologia estão ‘escolhendo vencedores’ — seja por meio de acesso a produtos, seja por meio de parcerias”.

Veja, se o parâmetro é esse, eu considero o Aos Fatos um vencedor. Felizmente, não precisei usar bigode postiço nem jogar beach tennis no Itaim Bibi para fechar acordos com a Meta e o Google, embora a jornada não tenha sido um domingo no parque. No entanto, o que se viu nos últimos anos, com a chegada de novas plataformas ao ecossistema local, é que elas também escolheram outros parceiros em decisões tomadas dentro de escritórios bem distantes do Largo do Machado, onde fica a Redação.

Na edição #24 deste Digital Disfuncional, narrei como o TikTok anunciou uma operação-padrão contra desinformação para 2024. “Com mais de 2 bilhões de pessoas” indo às eleições neste ano, a empresa fez parcerias com “17 organizações de checagem de fatos” em todo o mundo para atender pelo menos 50 mercados. Em muitos países do Sul Global, empresas com estruturas internacionais, como Reuters e France-Presse, se sobrepõem a organizações locais e suas nuances.

Não me surpreenderei caso algo semelhante aconteça quando empresas de tecnologia recém-chegadas aos estreitos corredores do jornalismo brasileiro começarem a distribuir seus Pix. Se plataformas como Microsoft e OpenAI privilegiam organizações jornalísticas com grandes acervos e cobertura generalista para abastecer seus produtos, como ocorre hoje nos países ricos, é esperado que veículos locais, de nicho e menor periodicidade sejam despriorizados.

Perguntei a Maia Fortes, diretora executiva da Ajor (Associação de Jornalismo Digital, da qual Aos Fatos faz parte e já integrou o conselho), se ela compartilha da mesma opinião. “Se o critério para estabelecer parcerias for só o tamanho do acervo, temos, sim, risco de concentração”, diz.

Para diminuir os vieses desse tipo de tecnologia, seria importante estabelecer parâmetros qualitativos sobre determinados tipos de cobertura, de modo que as informações que alimentam os modelos de linguagem diminuam os vieses das respostas dos assistentes de IA. “Acho que o conteúdo considerado de nicho, temático ou regional pode contribuir para evitar equívocos no treinamento dos modelos de linguagem”, avalia Fortes.

Além de parcerias de licenciamento de conteúdo serem potenciais pontos de tensão entre publishers e plataformas, também há exasperação diante da perspectiva de ampliação da dependência tecnológica do jornalismo. Em quase duas décadas, a indústria de notícias sujeitou-se a essas empresas para distribuir sua produção. Agora, a expectativa é que, diante da ameaça de proliferação de fazendas de conteúdo gerado por IA, não reste opção a não ser aderir aos produtos dessas plataformas para reforçar a infraestrutura, acelerar processos nas redações e deixá-las ainda mais sujeitas ao humores de alguns poucos homens.

É um momento sui generis, com delírios de autoimportância e cinismo exacerbado por velhos traumas. Enquanto empreendedores e executivos anglófonos afirmam que é hora de o jornalismo mostrar o seu valor, resta saber quantas redações brasileiras vão sobrar para tocar o pandeiro para o mundo sambar.

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