Ações clandestinas da ‘Abin paralela’ realçam violências reais

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Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional.


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#35 | 🎯Violências reais e clandestinas

Embora o país transpareça passar por um momento de certa normalidade institucional, a sensação de insegurança que marcou os anos Jair Bolsonaro ainda ronda Aos Fatos e seus jornalistas.

Nesta quinta-feira (11), o ministro do STF Alexandre de Moraes levantou o sigilo de uma investigação sobre o uso ilegal da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) em ações clandestinas contra autoridades, jornalistas e ativistas. Aos Fatos foi uma das organizações monitoradas por agentes do governo com a finalidade, segundo a Polícia Federal, de coordenar ataques nas redes sociais.

Conforme a repórter Gisele Lobato relatou nesta sexta-feira (12), os investigados monitoravam seus alvos — em alguns casos, usando ferramentas de inteligência de forma irregular — em busca de elementos que pudessem ser explorados na construção de alegações falsas. Os dados eram propagados por meio de donos de perfis que usavam desinformação de maneira contumaz nas redes sociais — e que, em muitos dos diálogos, pareciam não saber que tinham como interlocutores agentes de inteligência.

“Dentre os perfis utilizados, a representação ressalta as postagens feitas por Richards Pozzer. Os diálogos interceptados revelaram que Giancarlo, por meio do perfil falso ‘Verdades’, encaminhava dossiês para o perfil de Richards Pozzer, a fim de que ele propagasse o conteúdo. Esse foi o modus operandi utilizado nas ações clandestinas contra os alvos Sleeping Giants Brasil, Anna Livia Solon Arida, ‘Aos Fatos’ e ‘Lupa’, que sofreram ataques virtuais por meio dos perfis ‘@richard_pozzer’ ou ‘@rootpozzer’”, aponta relatório da Procuradoria-Geral da República.

Se havia operadores dentro da central de inteligência do governo para constranger jornalistas, era porque a violência digital era estratégia oficial, ainda que classificada como clandestina.

Diante de tais práticas, a presunção de impunidade impulsiona extremistas até hoje a atacar indivíduos e organizações que constrangem seus projetos de poder. Ações coordenadas em plataformas como o ex-Twitter seguem comuns e podem resultar em danos reais.

Também nesta quinta-feira participei de um painel no Congresso da Abraji sobre checagem de fatos e integridade eleitoral, para falar do trabalho do Aos Fatos de combate à desinformação que ataca a democracia e suas instituições. Ao meu lado estava Doreen Wainainah, editora do Pesa Check, organização de checagem com base em Nairóbi (Quênia) e presença em outros 14 países africanos. Tudo o que a Polícia Federal relata na investigação sobre a “Abin paralela” a ela parece estranhamente familiar.

Segundo Wainainah, mecanismos de controle positivos, como a Lei de Acesso à Informação, podem servir para monitorar e aprisionar repórteres em lugares onde o direito à liberdade de imprensa e de expressão foi suprimido. Há casos notórios em países onde Pesa Check opera em que o governo constrangeu jornalistas que requeriam informações legalmente, via leis de acesso, após intimá-los a comparecer pessoalmente para buscá-las. Grampos, ações de inteligência e outros tipos de espionagem são corriqueiros.

Meu colega e editor do Estadão Verifica, Daniel Bramatti, mediou o painel e lembrou os reiterados episódios de violência pelos quais jornalistas que trabalham com checagem têm passado nos últimos anos. Para profissionais que necessitam lidar com distinções pouco banais entre o que é verdadeiro e o que é falso, é uma grande infelicidade transitar num mundo em que certas violências são mais reais do que outras.

Referências

  1. STF
  2. Aos Fatos (1 e 2)
  3. Pesa Check

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