Marco André Faustino, nosso “detetive Faustino”, morreu no último dia 30 de março, após ser baleado em uma tentativa de assalto em São Gonçalo (RJ). Como dito por colegas, Marco foi o decano da checagem de fatos no Brasil: em 2015, quando pouco se falava do assunto, ele já desmentia boatos na internet.
Antes do Aos Fatos, Marco trabalhou no e-Farsas e colaborou com o blog AssombradO. Nessa época, o que viralizava era o que apelidamos de “fake news raiz”: esquilos fazendo pose de super-herói ao caírem no chão, florestas crescendo de cabeça para baixo e a androide (ou ginoide) Sophia tuitando.
Vamos combinar: eram mentiras feitas de forma até bem-humorada — teorias conspiratórias, montagens ou histórias mirabolantes que buscavam engajamento em uma internet que ainda não havia sido sequestrada pelas plataformas digitais.
Quando Marco entrou no Aos Fatos, a mentira já havia se consolidado como arma política. O primeiro texto que ele publicou no site desmentia que as vacinas contra a Covid-19 poderiam causar câncer. Desde então, durante a maior parte do tempo, nosso detetive se dedicou a combater esse tipo de mentira.
Mas houve dias em que uma “fake news raiz” viralizava tanto que não havia como fazer vista grossa. E, nesses momentos, era possível perceber que o Marco trabalhava ainda mais contente do que sempre. Não foram poucas as vezes que comentamos em reuniões algo do tipo: “essa foi feita pro Marco”.
Esta edição é uma homenagem a esses momentos em que nosso detetive Faustino deixava ainda mais claro seu amor pela checagem.
1. Comida na mesa, míssil no carro
Em 2021, circulou na internet que a PM teria realizado um programa de desarmamento no qual a população poderia trocar armas de fogo por comida. Nesse contexto, uma brasileira teria sido detida após tentar trocar um míssil.

Isso não aconteceu. Pelo menos, não do jeito que as peças de desinformação narravam.
O caso ocorreu no México, em 2019. Na época, Ciudad Juarez realizava a campanha "Ármate de valor y desármate" (Arme-se com coragem e desarme-se, em português), que permitia a troca de armamentos, munições e explosivos por dinheiro — e sem a necessidade de informar a procedência do material!
Nesse contexto, uma senhora alegou ter achado um míssil em sua propriedade e pediu ajuda aos policiais para trocar o artefato. Ela ganhou 800 pesos pela entrega e não foi presa.
2. Lanchinho do Putin
O que uma imagem do presidente russo Vladimir Putin comprando sorvete numa banca tem a ver com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)? De acordo com bolsonaristas, tudo. Essa imagem passou a circular em 2021 como se fosse uma prova de que o brasileiro teria lançado moda e estimulado outros líderes a comer em barraquinhas de rua.

A imagem de Putin na banca de sorvete, no entanto, precedia a eleição de Bolsonaro: ela foi registrada em 2017 e mostrava uma cena que se repetia desde 2005. Sempre que o presidente russo visitava um evento de demonstração de aeronaves, ele comprava sorvete na banca do local.
3. Parquinho 18+
Onde a prefeitura de Santa Etelvina do Guaíba estava com a cabeça ao instalar um parque infantil com temática de “ideologia de gênero”? E isso em dezembro de 2021, durante o governo Bolsonaro? Só pode ser brincadeira.
E o Marco descobriu que era mesmo.

A cidade gaúcha citada não existe e o escorregador que simula genitálias foi instalado no Canadá em 2021 para o filme de comédia “Joy Ride” (“Loucas em Apuros”, em português). Mesmo com o nome do prefeito — Fellipe Weissfüder Garcia —, ainda teve gente acreditando na história e criticando a esquerda pela obra.
4. Abraçados com o capeta
Mesmo que o canal Porta dos Fundos tenha um público considerável, ainda tem gente que não conhece o elenco e acreditou que o ator Luis Lobianco era ministro do governo Lula.
O vídeo “Aliança com o Demo” circulou como se mostrasse um integrante do alto escalão petista explicando as propostas do governo em relação à religião no Brasil.

A checagem resultou em um dos melhores títulos já publicados pelo Aos Fatos: “É falso que ministro de Lula propôs ‘abraçar o capeta’ e substituir a Bíblia pela Constituição”.
5. Liberou geral
Ninguém pode se chamar de checador enquanto não tiver desmentido algo relacionado ao Papa. Antes da Páscoa de 2024, circulou nas redes que o Papa Francisco — que já era atacado por ser considerado “progressista” — teria permitido que os católicos fizessem churrasco na data comemorativa, quebrando a tradição cristã de não comer carne vermelha.

A mensagem, que ainda por cima tentava trazer uma lição de moral, era obviamente falsa: não havia nenhuma declaração semelhante do pontífice no site do Vaticano ou na imprensa especializada.





