O segundo episódio de Ctrl+Fake, lançado nesta quinta-feira (16), nasce de uma pergunta que acompanhou toda a produção da série: como as plataformas digitais, que são espaços privados, tornaram-se pilar fundamental da infraestrutura de organização política global? No Brasil, costumamos olhar as eleições de 2018 como o exemplo mais eloquente dessa virada. A resposta, porém, está numa sequência de eventos que marcaram os anos 2010 e que reconfiguraram o debate público no Brasil e no mundo.
Se o primeiro episódio mostrou como a arquitetura das plataformas alterou a produção e a circulação de informação, agora o foco está em como esse ambiente passou a organizar identidades políticas, ressentimentos e estratégias de mobilização. Quem acompanha a política mediada pelo digital sabe bem que não dá para tratar Jair Bolsonaro como um fenômeno eleitoral repentino ou um mero produto das redes sociais. Por isso, o roteiro volta a 2013, passa pela Lava Jato e pelas manifestações pró-impeachment e observa como as plataformas se consolidaram como câmara de eco de outras mídias — a TV, o sistema político, a imprensa e o empresariado foram fundamentais para a construção de uma nova cultura política, agora mediada pelo ambiente digital.
Mais do que registrar acontecimentos, o segundo episódio de Ctrl+Fake mostra como a política passou a ser performada nas plataformas — e como esse ambiente favoreceu discursos simplistas apresentados como supostas soluções para problemas complexos. Entre o vácuo de representatividade da direita institucional e a ascensão de influenciadores digitais, formou-se um ecossistema em que teorias conspiratórias e inimigos fabricados passaram a estruturar o debate público.
Exemplo disso é a construção da narrativa conspiratória em torno do “kit gay”. Num caso que colocou a política institucional e o governo Dilma Rousseff de um lado e os fatos de outro, o material didático do projeto Escola sem Homofobia nunca chegou a ser distribuído, mas permaneceu ativo por anos como espantalho político e reapareceu com força na eleição de 2018.
Esse capítulo da história política brasileira ajuda a entender por que a desinformação precisa ser tratada como tecnologia de poder. Expressões como “kit gay” ou “ideologia de gênero” não se sustentam apenas pela falsidade, mas pela capacidade de produzir medo, organizar pertencimento e dar forma a frustrações sociais. Em plataformas que recompensam engajamento e simplificação, esse tipo de narrativa encontra condições ideais para circular, adaptar-se ao perfil de seus usuários e persistir.
Outro eixo importante da apuração foi o papel do WhatsApp como o “encanamento invisível” da campanha de 2018. Em um ambiente fechado e criptografado, a circulação de conteúdo torna-se praticamente impossível de rastrear, o que altera não só a escala da propaganda política, mas também a capacidade de resposta das instituições. E, como cereja do bolo, a retórica de fraude nas urnas eletrônicas consolidava-se antes mesmo da votação. O resto é história.
Produzir este episódio também exigiu evitar uma narrativa confortável demais. Seria simples atribuir essa transformação a um único evento ou ator. Mas a hipótese que sustenta Ctrl+Fake é outra: a desinformação que marcou 2018 resulta de um acúmulo histórico de ressentimentos políticos e de mudanças tecnológicas que encontraram um lugar no espaço e no tempo para prosperar. As plataformas não criam esses processos sozinhas; aceleram, conectam e amplificam todos eles.
Talvez por isso Ctrl+Fake funcione ao mesmo tempo como retrospectiva e como ferramenta de leitura do presente. Ao revisitar 2013 e chegar a 2018, este segundo episódio deixa claro que, mesmo em abril de 2026, às vésperas de mais uma eleição presidencial, ainda estamos vivendo essa mesma reorganização do campo político. Contar essa história não é apenas explicar uma eleição passada, mas entender como a realidade segue em disputa.
🎧Agora em áudio: o primeiro episódio de Ctrl+Fake também já está disponível em áudio nas principais plataformas de podcast, como Spotify, Deezer, Apple Podcasts e Amazon Music. Comece a ouvir agora.





