Não é verdade que 811 mil chineses vieram para o Brasil desde que o presidente Lula (PT) assumiu o poder e poderão votar nas eleições deste ano devido a um tratado assinado com o país asiático. O vídeo que dissemina essa desinformação exagera o total de imigrantes vindos da China e ignora que estrangeiros só podem participar de pleitos no Brasil se forem naturalizados. Desde 2023, foram 274 chineses nessa situação.
A peça de desinformação acumulava mais de 6.000 compartilhamentos no Facebook e centenas de curtidas no Instagram até a tarde desta quarta-feira (22).
De 2023 até agora já entraram no Brasil 811 mil chineses. Milagrosamente eles já entram com documento e título de eleitor. Você sabe em quem eles vão votar?

É enganoso o vídeo em que um homem diz que 811 mil chineses entraram no Brasil durante o governo Lula e irão votar nas eleições de 2026. A afirmação contém os seguintes erros:
- Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre 2023 e abril de 2026, 13.022 chineses imigraram para o país;
- A mesma base de dados aponta que há, atualmente, 64.691 imigrantes chineses com registro de residência ativo no Brasil;
- De acordo com a Constituição, estrangeiros não podem ser eleitores brasileiros. Eles só ganham direitos políticos caso sejam naturalizados e solicitem o título de eleitor;
- Desde 2023, foram naturalizados 274 chineses, de acordo com o ministério;
- Não se sabe se esses pediram o título de eleitor, pois o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não disponibiliza esse dado;
- Ainda que todos requisitassem o direito e vivessem no mesmo estado, não seria possível alterar os resultados do pleito: a título de comparação, Armando Neto (PL-RR), o deputado estadual eleito em 2022 com menor número de votos, teve 3.046 votos.
O autor do vídeo alega ainda que os imigrantes chineses teriam recebido título de eleitor como uma contrapartida de um tratado assinado entre o Brasil e a China. Aos Fatos, no entanto, não identificou nenhum acordo semelhante firmado pelo Executivo nos últimos anos.
Mais mentiras. A gravação enganosa diz ainda que o atual governo teria assinado 54 acordos com a China que envolveriam diversos “entreguismos”. A fala também é repleta de desinformações:
- Segundo o autor, Lula teria assinado 54 acordos com a China. Esse número consta em uma reportagem publicada em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff (PT);
- Em novembro de 2024, Lula assinou 37 acordos com o país asiático e, em maio de 2025, mais 16. Nenhum deles envolvia eleições;
- Não é verdade que um dos tratados permitia que navios chineses pescassem no Amazonas. Há um protocolo de abril de 2025 que autoriza exportação de pescados de origem extrativa para a China;
- Também não procede a afirmação de que terras desapropriadas seriam doadas para chineses. A legislação brasileira determina que propriedades confiscadas pelo governo devem ser entregues para a reforma agrária e para programas de habitação popular;
- Há ainda a lei nº 5.709/1971 que regula a aquisição de terras por estrangeiros. Ela determina, por exemplo, que pessoas físicas e jurídicas estrangeiras não podem ser proprietárias de áreas superiores a um quarto do município em que estão situadas;
- Aos Fatos não identificou tratado relacionado à alegação de que Lula e a China teriam acordado “a renda do Porto de Santos”.
É verdade, no entanto, que foi a atual gestão que negociou a construção de uma fábrica da montadora chinesa BYD em Camaçari (BA). O memorando de entendimento com o governo estadual, no entanto, foi assinado em outubro de 2022, antes de Lula assumir o poder.
Esta peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica.
O caminho da apuração
Aos Fatos consultou as bases de dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública e entrou em contato com a pasta para verificar os números correspondentes a imigrantes e naturalizados originários da China. Também procuramos informações sobre direito de voto de estrangeiros nos sites do TSE e na legislação brasileira.
Por fim, buscamos notícias e notas públicas sobre tratados e acordos assinados entre Brasil e China nos últimos anos.





