Não é verdade que 8.000 empresas decretaram falência em junho de 2026, como afirmam publicações nas redes. Os dados mais atualizados, publicados pelo Serasa Experian, mostram que 234 empresas registraram requerimentos de falência entre janeiro e abril deste ano. A outra base de dados citada pelas publicações sequer registra falências.
Posts enganosos reuniam ao menos 2.000 compartilhamentos no Facebook e 50 mil visualizações no X nesta sexta-feira (21). O conteúdo foi também amplificado por figuras públicas, como o senador Márcio Bittar (PL-AC).
8.000 empresas faliram em junho.

É falso que 8.000 empresas teriam decretado falência em junho de 2026, diferentemente do que afirmam publicações nas redes sociais. O número não consta nas duas bases de dados citadas nos posts: Serasa Experian e pelo Monitor RGF.
Em nota enviada ao Aos Fatos, o Serasa Experian disse que a informação divulgada pelos posts não procede. O dado mais recente divulgado é de abril deste ano, quando 58 empresas entraram com pedidos de falência. Já entre janeiro e abril de 2026 foram abertos 224 processos de falência envolvendo 234 CNPJs.
Além disso, os pedidos de falência têm registrado queda durante o governo Lula (veja gráfico abaixo):
Mesmo se levarmos em consideração o número de CNPJs em recuperação judicial, o número não chega perto do citado pelas peças de desinformação. De janeiro a abril deste ano, 602 CNPJs fizeram o requerimento de recuperação judicial.
Porém, há diferenças entre recuperação judicial e falência. A recuperação judicial tem o propósito de evitar que a empresa quebre, ou seja, que chegue à falência. Para isso, é preciso seguir uma série de etapas, que inclui a criação de uma proposta para negociar dívidas e manter-se ativa. Se o plano não for cumprido, os credores podem pedir a falência.
Já o Monitor RGF, a outra base de dados citada pelos posts, sequer calcula dados de falências no Brasil. Essa base, diferentemente do Serasa, monitora apenas pedidos de recuperações judiciais.
O Monitor RGF calcula apenas o acumulado de empresas nessa situação. Ou seja, o dado de 2026 engloba também empresas que fizeram o requerimento de recuperação judicial nos anos anteriores. Segundo os dados mais recentes, 5.931 empresas estavam em recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026.
Em nota enviada ao Aos Fatos em checagem anterior, a RGF afirmou que, por causa de diferenças metodológicas, seus dados não podem ser usados junto dos números do Serasa e também não servem para comparar governos — uma vez que a série histórica começa apenas em 2023.
Empresas endividadas. As publicações, no entanto, mostram um dado verdadeiro: em junho deste ano, o Brasil acumulou 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes, o maior número já registrado pelo Serasa.
A maior parte das empresas endividadas (31,6%) está no segmento de serviços. Depois, os setores mais inadimplentes são bancos/cartões (19,5%) e cooperativas (8,4%).
Histórico. Peças de desinformação que sugerem uma onda de falências no Brasil têm sido recorrentes durante o governo Lula. Nesta primeira semana de campanha eleitoral, esse tipo de publicação começou a ser compartilhada ainda mais — inclusive por parlamentares de oposição: Aos Fatos desmentiu que Nestlé, Lupo e Domino’s teriam fechado fábricas e lojas ou encerrado suas atividades no Brasil.
Além dessas, Aos Fatos checou, só em 2026, alegações de que:
- Uma empresa teria demitido 4.000 funcionários nordestinos;
- A Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, fechou uma fábrica no Brasil;
- A Volkswagen teria demitido 100 mil funcionários no país;
- A Toyota teria encerrado as atividades no Brasil;
- Mais de 200 empresas teriam deixado o país para se instalar no Paraguai;
- A Coca-Cola decidiu reduzir o tamanho das embalagens vendidas no Brasil;
- A Mercedes-Benz transferiu as operações do Brasil para a Argentina;
- A fábrica responsável por produzir itens das marcas Adidas, Nike e Umbro teria sido transferida para o Paraguai;
- A Amazon teria anunciado o encerramento das operações no Brasil;
- Que o país teria registrado um recorde de falências em 2025;
- Electrolux teria anunciado fechamento de fábrica e demissão em massa no Brasil.
Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com o gabinete e com a assessoria do senador Márcio Bittar (PL-AC) para abrir espaço para comentários. O parlamentar não respondeu até a publicação desta checagem.
O caminho da apuração
Aos Fatos procurou o número citado pelas peças de desinformação nas duas fontes indicadas pelo post: Serasa e Monitor RGF. A reportagem entrou em contato com a primeira, que é a única que calcula o número de falências, e recebemos os dados mais atualizados sobre o tema. Aos Fatos também procurou o número — 8.000 falências — na imprensa e não identificou nenhuma fonte confiável.
Por fim, a reportagem entrou em contato com o senador Márcio Bittar, um dos propagadores da desinformação, para abrir espaço para comentários. O político não respondeu até a publicação desta checagem.





