Valter Campanato/Agência Brasil

Segundo turno foi movido por desinformação sobre fraude, censura e debate

Por Alexandre Aragão, Amanda Ribeiro, Ana Rita Cunha, Bianca Bortolon, Bruno Fonseca, Ethel Rudnitzki, João Barbosa, Julianna Granjeia, Laís Martins, Luiz Fernando Menezes, Laura Scofield, Milena Mangabeira, Natália Viana, Sérgio Spagnuolo e Tai Nalon

2 de novembro de 2022, 15h59

Esta reportagem foi feita numa colaboração entre Agência Pública, Aos Fatos e Núcleo Jornalismo para a cobertura das eleições de 2022. A republicação só é permitida com a atribuição de crédito para todas as organizações.

A constatação de que “a desinformação neste segundo turno está um desastre”, feita pelo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Alexandre de Moraes, se confirmou no fim de semana da votação. Diante da inação das plataformas, o tribunal expandiu poderes para acelerar a remoção de conteúdos considerados desinformativos ou de ataque à democracia.

Essas ações não evitaram, e algumas vezes impulsionaram, uma enxurrada de peças desinformativas criadas com o objetivo de favorecer Jair Bolsonaro (PL). Em parceria, Agência Pública, Aos Fatos e Núcleo Jornalismo investigaram campanhas articuladas e fomentadas por influenciadores do campo bolsonarista em suas redes sociais.

ASSÉDIO

Vários conteúdos falsos insinuando fraude ganharam impulso, na véspera do segundo turno, em grupos de Telegram e WhatsApp. Os mais recorrentes foram vídeos e textos de assédio eleitoral, nos quais supostos trabalhadores e empresários afirmavam que perderiam seu negócio ou seu emprego caso Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fosse eleito.

O Radar Aos Fatos descobriu que, entre os 40 áudios mais compartilhados em 287 grupos de política no Telegram monitorados, cinco (12,5%) continham relatos e ameaças do tipo. O mais compartilhado trazia o relato de um homem que se dizia vendedor de uma concessionária — e diz que perderia um contrato de venda de um caminhão se Bolsonaro não fosse reeleito. A gravação circulou 99 vezes em grupos de política.

Outro áudio, encaminhado 91 vezes, alegava que fazendeiros iriam parar de produzir e iam demitir funcionários. “Com todo respeito, se tiver petista no grupo, eu peço encarecidamente repensem o voto”, dizia. “Eu não estou pedindo pelo Bolsonaro, mas neste momento eu estou pensando em mim, na minha família, na família de vocês.”

fraude

O tema da fraude voltou a ser impulsionado por apoiadores do candidato derrotado nos últimos dias antes do pleito, articulado por influenciadores bolsonaristas e pelo próprio presidente. Os números de engajamento em publicações contendo o termo fraude dispararam no segundo turno, se comparados com a semana após o 1º turno, segundo dados analisados pelo Núcleo Jornalismo.

No Facebook, o engajamento mais do que dobrou e no Instagram, o engajamento por post foi 75% maior. Já no Telegram, nos 240 canais monitorados, o engajamento cresceu quase cinco vezes — isso revela que o conteúdo sobre fraude já estava atraindo atenção dos usuários antes mesmo das eleições acontecerem.

Durante o primeiro e o segundo turno, Bolsonaro gravou um vídeo, que foi postado por grandes influenciadores bolsonaristas, como o senador Fávio Bolsonaro (PL-RJ) e a deputada federal reeleita Carla Zambelli (PL-SP). Nele, convocava "fiscais" a ficar "de olho" no local de votação. A regra do TSE determina que fiscais devem estar devidamente registrados e com um crachá oficial de um partido, assinado por representante registrado com antecedência.

A narrativa ganhou tração de tal forma, que o TikTok bloqueou o termo "fraude" em sua busca – embora a medida tenha se provado ineficaz, conforme informou Aos Fatos.

A crescente ofensiva sobre o sistema eleitoral também foi um exemplo claro de como informações mentirosas trafegaram entre diferentes plataformas sem grandes dificuldades. Links com conteúdo de origem no TikTok e no Kwai alimentaram campanhas de desinformação sobre fraude em plataformas como WhatsApp e Telegram, por exemplo. Foi no formato vídeo, aliás, que a desinformação engajou mais em grupo de WhatsApp no segundo turno.

Censura

Paralela à fraude eleitoral, bolsonaristas procuraram justificar desvantagem nas intenções de voto com a alegação de que estariam sofrendo censura do TSE. Exemplo mais eloquente foi o da Jovem Pan, que usou a concessão de um direito de resposta determinado pelo TSE em favor de Lula para engajar sua audiência contra o sistema eleitoral.

Aos Fatos desmentiu publicações que diziam que um censor foi designado para fiscalizar os comentaristas da Jovem Pan durante gravações. Também publicou checagem mostrando que o TSE não decidiu "fechar" a emissora. A reboque dessa história, bolsonaristas criaram uma onda no Twitter com posts que traziam o texto “comentário removido pelo Tribunal Superior Eleitoral”. Os tuítes davam a entender que a Justiça Eleitoral havia determinado a exclusão desses conteúdos e protestavam contra uma censura que nunca aconteceu.

A associação entre fraude e censura foi conveniente ao bolsonarismo de tal forma que, em seu primeiro discurso após a derrota, Bolsonaro disse que seus apoiadores, que bloqueiam estradas e causam transtornos ao país, são provocados por um "sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral".

MEI

Uma fala de Lula editada e retirada de contexto foi usada pela campanha de Bolsonaro para fomentar o medo de que o petista iria acabar com o MEI. No sábado, calcado em uma publicação de Bolsonaro, o tema pautou o debate no Twitter e chegou aos assuntos mais comentados.

Durante o debate da Globo, na sexta (28), Lula criticou mudança na metodologia do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) feita pelo governo de Bolsonaro. “A primeira coisa que o povo brasileiro tem que compreender é que eles mudaram a lógica da medição de emprego. Eles colocaram o MEI como se fosse emprego [formal]”, afirmou.

No Twitter, na manhã de sábado, Bolsonaro afirmou que, “diferente de Lula”, tem orgulho dos MEIs e que eles “não são menos trabalhadores”. A publicação atingiu mais de 200 mil curtidas e compartilhamentos.

Bolsonaro também postou um vídeo de reação em que trabalhadores se mostraram revoltados com o fato de que Lula teria dito que eles “não trabalhavam”. A versão falsa também foi amplificada por Flávio Bolsonaro, que sugeriu que o petista teria a intenção de cobrar novos impostos sobre microempreendedores individuais.

O post do parlamentar, além de outros com o mesmo argumento, foi removido por determinação de Alexandre de Moraes. Até a exclusão, o conteúdo atingiu mais de 28 mil curtidas e compartilhamentos no Facebook. Mesmo depois disso, correntes com o mesmo teor circulavam no Instagram, no Twitter, no Facebook, no WhatsApp e no Telegram, segundo monitoramento do Radar Aos Fatos. Em casos assim, é difícil mensurar o alcance da mentira.

PRF

Dias antes das eleições, as redes bolsonaristas passaram a circular dezenas de vídeos apontando supostos casos de compra de votos por políticos petistas.

Um exemplo foi um vídeo compartilhado pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF), com uma foto de pilhas de dinheiro vivo apreendidas supostamente pela Policia Federal em uma operação que teria desbaratado esquema de compra de votos para o candidato petista.

A foto foi checada pelo Aos Fatos e é falsa. A imagem foi registrada em agosto de 2020 após uma operação no Rio de Janeiro contra fraudes nos Correios. A corporação afirmou que não realizou qualquer operação relacionada a compra de votos para Lula. Mesmo assim, o tuíte permaneceu no ar e teve mais de 35 mil likes.

Foi esse o contexto para a operação abusiva realizada pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) em diversos estados, mas com foco especial no Nordeste, região do país onde Lula teve ampla vitória.

No domingo (30), a PRF realizou mais de 500 operações nas rodovias do Brasil, número 70% superior ao primeiro turno, e eleitores passaram a relatar dificuldade de chegar em seus locais de votação. A Agência Pública apurou que houve cinco vezes mais ônibus parados no Nordeste do que no Sul do país.

A PRF desobedecia uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) dada na madrugada de sábado (29) determinando a proibição, até o fim da eleição, de qualquer operação relacionada ao transporte público, gratuito ou não, disponibilizada aos eleitores.

O tema inflamou as redes e mobilizou apoiadores dos dois candidatos. Enquanto a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffman (PR), exigia uma atitude, influenciadores aproveitaram a decisão de Alexandre de Moares para atacar o STF e dizer que o tribunal estava impedindo a polícia de trabalhar.

Essa versão falsa ajudou a radicalizar bolsonaristas dentro de uma campanha sistemática que liga o PT ao crime organizado, que agiria contra os “homens de bem” — desinformação fomentada por todo o ecossistema de desinformação bolsonarista durante toda a campanha eleitoral.

A mesma mensagem foi inflamada por sites hiperpartidários como o Gazeta Brasil, que teve links amplamente compartilhados em grupos de Telegram. Influenciadores como Bruno Engler e a deputada Bia Kicis amplificaram a narrativa, e a expressão “parabéns PRF” chegou aos assuntos mais comentados do Twitter.

“Proibiu sabem porque, ontem a PRF pegou no Paraná um ônibus do pt fretado pelo PCC, fariam tumulto por la”, escreveu um usuário no Telegram.

Outro usuário comentou: “A @PRFBrasil começou a apreender milhões de reais em porta-malas de veículos, o PT sentiu o baque e denunciou as polícias federais de agirem contra Lula. Alexandre de Morais the flash já intimou as duas polícias p saber porque estão trabalhando”.

Na tarde de domingo (30), o diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, foi convocado por Moraes para prestar esclarecimentos sobre as operações. Depois do encontro, o presidente do TSE disse que as operações foram realizadas com base no Código de Trânsito Brasileiro e que os eleitores que estavam sendo transportados puderam votar, embora com atraso.

Referências:

1. UOL
2. JOTA
3. Núcleo Jornalismo
4. Telegram (@senadorflaviobolsonaro)
5. YouTube (Carla Zambelli)
6. Agência Pública (1, 2 e 3)
7. Correio Braziliense
8. O Globo
9. G1
10. Twitter (@Biakicis)
11. Aos Fatos (1, 2 e 3)

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