Médica antivacina chama checadores de ‘organização criminosa’ em evento que aceita PIX

Por Ethel Rudnitzki

20 de julho de 2022, 19h05

A médica antivacina Maria Emilia Gadelha, que se notabilizou durante a pandemia de Covid-19 por espalhar informações falsas sobre a imunização, expôs imagens de jornalistas e os acusou de serem uma “organização criminosa”, sem apresentar provas. A fala ocorreu no domingo (17), durante um evento chamado “1º Encontro Invisíveis Experimentais”, promovido por um grupo criado em fevereiro de 2021 para se opor à vacinação contra a Covid-19, autointitulado Abravac (Associação Brasileira de Vítimas de Vacinas e Medicamentos).

A reunião ocorreu em São Paulo, em um auditório com capacidade para 250 pessoas, e contou com transmissão online. O objetivo, segundo os organizadores, era “promover a reunião de pessoas que tiveram alguma reação e suspeitam serem oriundas das ‘vacinas’ contra Covid-19”. Os ingressos, que segundo os organizadores foram esgotados, custavam R$ 35. Os participantes puderam assistir a palestras de médicos que se tornaram conhecidos por desinformar sobre a Covid-19, entre eles Maria Emilia Gadelha.

A médica com frequência repete as alegações enganosas de que os imunizantes possuem substâncias tóxicas em sua composição e que as vacinas não passaram por testes clínicos antes de serem aprovadas para uso em adolescentes. Na verdade, todos os imunizantes usados no Brasil passaram pelas fases necessárias para atestar sua segurança e eficácia e foram aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

O podcast Ciência Suja teve acesso a um trecho da fala de Gadelha no evento. Além de mentir sobre a segurança dos imunizantes, a médica atacou jornalistas e veículos de imprensa dedicados à cobertura de desinformação e checagem de fatos. Em uma apresentação de slides, ela expôs a imagem e perfis de redes sociais de integrantes das agências de checagem e os acusou de integrarem uma “organização criminosa”. “Eles precisam ser conhecidos e identificados”, disse Gadelha.

Entre as agências atacadas estão o Aos Fatos, Lupa, Estadão Verifica, AFP e o projeto Comprova. “Tudo que vem desses veículos não presta”, afirmou a médica. Segundo ela, a checagem de fatos seria um “poder alienígena autoinstituído”. Gadelha ainda atacou os financiadores e parceiros internacionais das agências, como a Open Society, que ela define como “instituição que pretende fazer controle social, liderada por George Soros”, e o Wellcome Trust, que teria “profissionais contratados para enganar a população mundial”.

A médica disse ainda que a Fátima, robô checadora do Aos Fatos, “censura” opiniões na internet. Na verdade, o projeto usa inteligência artificial para enviar links de checagens, ensinar usuários a checarem informações e enviar boletins de notícias, entre outras funções. A Fátima está disponível no WhatsApp e no Messenger, ambos da Meta, e também no Twitter.

Gadelha é pré-candidata a deputada federal em São Paulo e presidente da Executiva feminina do PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). Sua candidatura foi anunciada em abril, ao lado de outras quatro médicas que saíram em defesa do chamado “tratamento precoce” contra Covid-19, sem respaldo científico.

Em email enviado à 0h33 desta quinta (21), Gadelha pediu que fosse registrada a seguinte resposta: “Pimenta no final do tubo digestivo do outro é refresco.” A médica disse ainda que checadores “se autointitulam donos da verdade com um poder alienígena e nefasto que busca destruir reputações”. Na assinatura da mensagem, ela cita uma frase atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha Nazista.

ATUALIZAÇÃO: Este texto foi atualizado às 11h38 de quinta (21) para incluir a resposta da médica Maria Emilia Gadelha.

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