Bolsonaro repete tática de apagar mentira e testa Facebook, que suspendeu Trump um dia após Capitólio

Por Luiz Fernando Menezes, Bianca Bortolon e Milena Mangabeira

11 de janeiro de 2023, 15h40

Pela primeira vez desde que foi derrotado, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) compartilhou no Facebook, na noite de terça-feira (10), um vídeo com desinformação eleitoral contestando o resultado de 2022. Horas depois, ele apagou o conteúdo, que alegava uma suposta fraude — o que é falso.

Durante o mandato, Bolsonaro repetiu a tática de publicar conteúdos falsos nas redes e, em seguida, deletá-los. Após serem postados pelo ex-presidente, esses conteúdos viralizam e se disseminam em nas principais plataformas, conforme ocorreu desta vez. Depois de ser compartilhado milhares de vezes, o post apagado nesta quarta (11) segue sendo replicado por apoiadores no Facebook e em outras redes.

Print mostra vídeo compartilhado por Bolsonaro que traz legenda “Lula não foi eleito pelo povo, ele foi escolhido e eleito pelo STF e TSE”
Desinformação. Bolsonaro compartilhou, na noite de terça-feira (10), vídeo em que sugere que houve fraude nas eleições presidenciais de 2022 (Reprodução/Facebook)

A publicação que Bolsonaro compartilhou já passa dos 15 mil compartilhamentos e 110 mil visualizações no Facebook e permanece no ar. Apesar de estar na plataforma da Meta, que também controla o Instagram e o WhatsApp, o vídeo possui marca d’água do Kwai, indicando que foi postado originalmente na plataforma de vídeos curtos.

O vídeo original, do usuário @Xavier~31, também foi apagado. No entanto, ainda é possível encontrar republicações do conteúdo no Kwai, que somam mais de 2,5 mil visualizações totais. Outros cortes semelhantes também foram publicados no TikTok, em que tiveram cerca de 2,3 mil visualizações, e disseminados via Telegram e WhatsApp, nos quais é impossível medir o alcance.

O vídeo é um trecho de uma entrevista com o procurador do estado Felipe Gimenez, do Mato Grosso do Sul, veiculada em novembro na Rádio Hora 93,2, de Campo Grande. Gimenez alega que Lula “não foi eleito”, mas “escolhido pelo sistema eleitoral”. Além de o procurador não apresentar nenhuma prova, não há qualquer indício de que houve fraude nas eleições do ano passado. O sistema eleitoral brasileiro possui mecanismos que garantem não só a segurança, mas também a auditoria dos votos.

O cargo de procurador do estado não faz parte do Ministério Público, apesar do nome. É uma carreira ligada à Procuradoria-Geral do Estado, responsável por representar o Mato Grosso do Sul em ações judiciais. Nesta quarta (11), a corregedoria da instituição afirmou que investiga a conduta de Gimenez.

Há diversos exemplos de Bolsonaro utilizando a estratégia de publicar alegações falsas ou ataques às instituições e em seguida apagá-los.

  • Em outubro de 2019, ele compartilhou um vídeo em que retratava autoridades como animais — ministros do STF, por exemplo, eram hienas, e ele, o leão — e apagou logo depois. A publicação continuou viralizando no Twitter e em outras redes sociais;
  • Durante a pandemia da Covid-19, Bolsonaro compartilhou um vídeo mentiroso em que um homem dizia que o Ceasa de Contagem (MG) estaria desabastecido por conta das medidas de isolamento. A publicação foi deletada quando acumulava mais de 200 mil visualizações e dezenas de milhares de compartilhamentos — e continuou viral;
  • Em julho de 2021, Bolsonaro repetiu a estratégia e disseminou imagens de uma motociata realizada um mês antes, em São Paulo, como se fossem recentes e tivessem sido feitas em Porto Alegre. A publicação foi apagada, mas o vídeo descontextualizado e outras imagens enganosas viralizaram por meio de seus apoiadores.

No domingo (8), após atos terroristas contra as sedes dos Três Poderes, em Brasília, a Meta divulgou nota à imprensa dizendo que, “antes mesmo das eleições, designamos o Brasil como um local temporário de alto risco e passamos a remover conteúdos que incentivam as pessoas a pegar em armas ou a invadir o Congresso, o Palácio do Planalto e outros prédios públicos”.

“Agora também designamos este ato como um evento violador, o que significa que removeremos conteúdos que apoiam ou exaltam essas ações. Estamos acompanhando a situação ativamente e continuaremos removendo conteúdos que violam nossas políticas”, conclui o texto.

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Publicações semelhantes à de Bolsonaro motivaram a suspensão no Facebook e no Instagram, a princípio por dois anos, do ex-presidente americano Donald Trump. Os perfis saíram do ar em 7 de janeiro de 2021, um dia após a invasão do Capitólio, e a empresa alegou que Trump violou as políticas da plataforma ao incentivar a violência política.

Aos Fatos entrou em contato com a Meta para questionar se a mesma regra vale para o ex-mandatário brasileiro e se a tática usada por ele, de postar conteúdo mentiroso e deletar em seguida, o isenta de punições. A nota será atualizada no momento em que a resposta for enviada.

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