Como um boato fez o Exército gerar pânico em Canoas — e por que isso mostra o risco das mentiras durante crises

Por Luiz Fernando Menezes

27 de maio de 2024, 16h54

Na noite do último domingo (26), moradores do bairro Mathias Velho, em Canoas (RS), foram surpreendidos por militares nas ruas pedindo que fugissem de suas casas porque um dique poderia romper a qualquer momento e alagar a região. O alerta, no entanto, era falso: nenhuma estrutura do tipo havia sido danificada. O boato gerou pânico e novas críticas nas redes à atuação do Exército no Rio Grande do Sul.

Por volta das 19h, moradores da região publicaram relatos de que os militares teriam pedido que eles evacuassem a área. Vídeos (veja abaixo) mostram viaturas emitindo o alerta por meio de megafones e soldados dizendo para as pessoas que elas deveriam abandonar o local.

Pouco tempo depois, a Prefeitura de Canoas publicou nas redes um desmentido: “Não é verdadeira a informação de evacuação no bairro Mathias Velho, nesta noite de 26/05 #FakeNews”.

Algumas horas depois, foi a vez de o Exército reconhecer o erro: “Militares souberam, sem confirmação, que um dique havia se rompido e imediatamente passaram a comunicar erradamente aos moradores da necessidade de evacuação das áreas consideradas em risco”. As Forças Armadas informaram que os responsáveis foram afastados enquanto o caso é investigado.

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ORIGEM DESCONHECIDA

Não se sabe, até o momento, qual foi a origem da informação incorreta. Aos Fatos questionou a Prefeitura de Canoas e o Exército para tentar descobrir se o boato se originou de alguma publicação nas redes, mas ninguém soube informar.

Por volta de 19h, uma equipe da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada do Exército passou a comunicar o alerta de evacuação. A brigada fica sediada em Florianópolis, mas está no Rio Grande do Sul em meio à Operação Taquari 2, que promove ajuda humanitária às vítimas das enchentes.

Questionada pela reportagem dos Aos Fatos, a equipe de comunicação do Exército disse, por telefone, que a equipe da brigada recebeu a informação incorreta e tomou iniciativa imediata de acionar o alerta, sem checar antes a veracidade dos dados. De acordo com os militares, a equipe agiu comando “com o intuito de salvar vidas”, e foi aberto um procedimento para averiguar a fonte do alerta falso.

Em busca nas redes, Aos Fatos não identificou nenhuma publicação ou mensagem que tenha circulado ontem com a informação de que o dique de Mathias Velho teria se rompido. Há publicações desinformativas que relatam o rompimento da estrutura, mas elas circularam dias antes do alerta dos militares.

Vídeo que mostra água correndo circula com legenda que diz ‘momento que o dique estourou em Canoas bairro Mathias Velho’
Desinformação. Publicação que circulou no final da semana passada e dizia mostrar momento que dique estourou é, na verdade, gravação de drenagem de água (Reprodução/Kwai)

Também há registros de que vídeos com alertas antigos de evacuação referentes a Canoas teriam voltado a circular nas redes no final da semana passada.

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CONFUSÃO E DESINFORMAÇÃO

Canoas foi uma das cidades mais atingidas pelas enchentes no início do mês — a Defesa Civil estima 27 mortes e 12 desaparecimentos no município — e tem sido alvo recorrente de desinformação nas redes. Publicações sugerem que a cidade teria registrado mais mortes do que o divulgado oficialmente, que a gestão municipal teria reembalado doações para fazer propaganda para o governo federal e que o prefeito, Jairo Jorge (PSD), teria sido atacado fisicamente pela população.

Usuários nas redes lembram que, durante o momento mais crítico das chuvas, houve um caso semelhante à confusão causada pelo Exército. No dia 2 de maio, a prefeitura disse que o bairro Rio Branco não precisaria ser abandonado porque a equipe teria conseguido contornar a situação. Um dia depois, no entanto, a Defesa Civil pediu que população deixasse a região, que acabou sendo alvo de uma enchente que deixou pessoas desabrigadas.

Esse cenário alimenta a desconfiança dos moradores que, num primeiro momento, duvidaram do desmentido da prefeitura no último domingo (veja abaixo).

Seis comentários que foram publicados no post da prefeitura de Canoas e duvidavam de informações oficiais
Dúvidas. Comentários em publicação da prefeitura duvidam de desmentido (Reprodução/Instagram)

Com a retratação dos militares, no entanto, usuários também criticaram as Forças Armadas. Nas redes da prefeitura, o Exército foi apelidado de “Comando Maluco” e “Trapalhões” e algumas pessoas pediram a investigação de quem emitiu a ordem de evacuação.

Mesmo após a explicação do Exército, alguns usuários questionavam a veracidade do desmentido das autoridades. Há, inclusive, publicações que usam o caso como fonte para realimentar a desinformação. Agora os conteúdos desinformativos alegam que o alerta foi uma estratégia do governo e dos militares para esconder corpos que estariam sendo resgatados na região. Isso, no entanto, não tem lastro na realidade.

O Exército vem sendo alvo de críticas e desinformação nas redes em meio às operações de resgate das vítimas das enchentes. As publicações dão a entender que o Exército estaria fazendo poucos esforços para auxiliar as vítimas no estado ou que os resgates estariam acontecendo com atraso e lentidão.

Informações enganosas sobre a atuação do Exército têm incomodado, inclusive, o alto comando. "A fake news desmotiva, espalha inverdade. Mas não podemos nos desmotivar com isso. Temos que estar o tempo todo mostrando o que está acontecendo e mostrando a verdade", afirmou o comandante Tomás Paiva em entrevista ao g1.

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