Mentiras sobre enchentes no Rio Grande do Sul ocultam informações essenciais, atrasam socorro e ampliam crise

Por Ethel Rudnitzki

6 de maio de 2024, 19h13

Os últimos dias foram marcados por enchentes sem precedentes no Rio Grande do Sul. Até esta segunda-feira (6), houve registro de 83 mortes e ao menos 110 desaparecimentos no estado, e 336 municípios decretaram estado de calamidade pública. Cerca de 141 mil pessoas estão desabrigadas.

As redes foram inundadas de publicações sobre a tragédia. Mas, além de posts com informações essenciais à população gaúcha e pedidos de doação, circulam também vídeos e imagens enganosas, além de outros antigos e fora de contexto.

Monitoramento do Aos Fatos mostra que boa parte dos posts aposta no uso de conteúdos de cunho político, sob o argumento de que os esforços de socorro e resgate estariam sendo feitos pela própria população ou pela iniciativa privada.

Outros ampliam o quadro ao anunciar medidas falsas como supostos cortes de energia ou exagerar o total de mortes registradas — obrigando as prefeituras a desmentir.

Outra característica é o fato de os posts enganosos serem disseminados por pessoas influentes nas redes. Uma delas, por exemplo, foi publicada pelo coach Pablo Marçal (PRTB), que tem 27 milhões de seguidores. Marçal tentou concorrer à Presidência em 2022, mas teve sua candidatura barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Publicações que atingiram mais de 700 mil curtidas no Instagram, por exemplo, afirmaram que o empresário Luciano Hang — investigado pelo Supremo Tribunal Federal por defender um golpe de Estado — teria sido mais ativo para ajudar nos resgates das vítimas do que a FAB (Força Aérea Brasileira).

O dono das lojas Havan cedeu dois helicópteros e uma aeronave. Já o governo federal mobilizou, além de dois helicópteros da FAB com tecnologia para realizar missões de resgate em condições adversas, outras 20 aeronaves das Forças Armadas, 84 embarcações, 385 viaturas e equipamentos de engenharia e mais de 1.100 oficiais até o último sábado (4).

Os números da operação foram atualizados nesta segunda-feira (6). Neste momento, 42 aeronaves, 240 embarcações, e mais 2.000 viaturas estão prestando ajuda à população.

A comparação enganosa entre o auxílio prestado por Hang e a atuação da FAB foi impulsionada pelo ex-deputado estadual Bruno Souza (PL-SC), no Instagram.

Publicação enganosa sobre auxílio de Luciano Hang e atuação da FAB na tragédia no RS.
‘Perseguido e banido.’ Deputado estadual faz comparação enganosa entre auxílio de Luciano Hang e atuação da FAB na tragédia no RS. (Reprodução)

Outros posts do tipo viralizaram no X. Alguns, com mais de mil visualizações, alegavam que os helicópteros enviados pelo governo federal não teriam realizado resgates por dificuldades climáticas, ao passo que as aeronaves do empresário, sim. Porém, segundo balanço das Forças Armadas publicado no sábado (4), foram realizados mais de 9.700 resgates, dos quais cerca de 400 foram aéreos.

Gravações que mostram resgates sendo feitos por civis também serviram para alimentar as críticas ao governo — alguns deles, no entanto, atribuem imagens de enchentes até em outros países ao desastre no Rio Grande do Sul.

“Vocês sabem quem está removendo as pessoas de suas casas? Não é o Exército. São os jipeiros, o pessoal do jet-ski, o pessoal do barco. São eles que estão fazendo o socorro das pessoas”, diz vídeo que circulou em grupos no WhatsApp.

Também voltaram a circular sem contexto vídeos nos quais o presidente Lula (PT) é vaiado no estado, somando mais de 3.000 visualizações no YouTube e centenas de visualizações no TikTok. As gravações antigas, feitas em março, têm sido compartilhadas como se fossem de sua visita ao estado no último final de semana.

Alvo estadual. O governo do Rio Grande do Sul também entrou na mira das publicações enganosas. O influenciador Pablo Marçal (Pros-SP) publicou um vídeo no qual alega que a Secretaria da Fazenda estaria barrando a entrada ou cobrando impostos de caminhões de doações por não possuírem nota fiscal — o que foi desmentido pelo governo. Publicações com o vídeo enganoso atingiram mais de 75 mil curtidas no Instagram. Marçal foi procurado pelo Aos Fatos, mas não respondeu.

Referências:

1. g1
2. Congresso em Foco
3. UOL
4. STF
5. Terra
6. Exército Brasileiro
7. Governo federal
8. Aos Fatos
9. Agência Lupa
10. Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul

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